Conselhos úteis ao meu filho

Publicado por João Mellão Neto Em 08 Feb 2010

pai-e-filhoMeu filho do meio, o Ricardo, hoje com 22 anos e prestes a se formar em Direito, me manifestou o seu desejo de seguir a carreira política. Quanto ao País, tudo bem. Ele tem uma sólida formação moral, ideais e princípios bem definidos e uma cultura humanística bem superior à média, para a sua idade. Mas, perguntei-lhe, desde quando política pode ser definida como uma carreira?
Há maneiras diversas de se chegar a ela. Muitos logram galgar cargos eletivos porque, por algum motivo, conquistaram respeito e prestígio em suas comunidades. Começam como vereadores, têm desempenho destacado, e logo são levados a disputar a prefeitura de sua cidade ou um mandato de deputado estadual ou federal. Outros se elegem em função da mídia, por nela, graças ao seu talento comunicativo, se tornarem conhecidos e admirados o suficiente para amealhar um número de votos suficiente para aspirar a uma candidatura. Há aqueles que se elegem por serem parentes ou afilhados de algum político famoso, que lhes transfere parte de seus votos. E há, também, aqueles que, sendo abastados, se dispõem a despender fortunas em busca de um mandato que, uma vez obtido, lhes trará prestígio e consideração por parte da sociedade. Quais deles saberão se comportar da forma mais digna, de modo a honrar o mandato que os eleitores lhe outorgaram? É difícil dizer.
Carlos Lacerda, num de seus livros, distinguiu os políticos mesquinhos, tacanhos, daqueles realmente dotados de grandeza. Os pequenos, observava ele, são os que vêem no poder – e na pompa de que ele é revestido – apenas uma forma de exaltar o seu amor-próprio. Deixam-se levar pelos áulicos, extasiam-se com as reverências que lhes são dedicadas, aproveitam-se do posto para ajudar os amigos e espicaçar os desafetos e jamais vêm a entender o quanto poderiam ter-se valido do cargo para promover mudanças realmente proveitosas para a sociedade. Os miúdos simplesmente são varridos pelos ventos da História. São merecidamente esquecidos porque, na verdade, nada fizeram de monta para que viessem a ser lembrados. Ao contrário do que parece, o exercício do poder, tão sonhado e almejado, não os satisfaz. Em pouco tempo as tropas perfiladas e o rufar dos tambores acabam por se tornar rotineiros, não mais entusiasmam, e o que resta ao governante são os problemas e as dificuldades, que parecem multiplicar-se à medida que o tempo passa.
Já no caso dos autênticos estadistas, daqueles raros homens de fato dotados da virtude da grandeza, o poder não é desejado apenas como um fim em si, mas sim como uma preciosa e indispensável ferramenta para aperfeiçoar a sociedade. Com ou sem conotações místicas, todos eles se sentem predestinados (e já li centenas de biografias). Julgam-se dotados de uma missão cuja importância é maior que a deles próprios. As honrarias que lhes são dirigidas não os comovem, só amplificam o seu senso de responsabilidade. A que vieram, por que vieram são questões existenciais que os atormentam diuturnamente. E, uma vez escolhidos, dedicam ao posto o melhor de si e de seus sentimentos.
Ricardo, meu filho, que tipo de político você pretende ser? Pequenos e menores já existem de sobra. A sociedade não carece deles. Mesmo que lhe faltem as virtudes necessárias para ser um Churchill ou um De Gaulle, procure pensar e se comportar como se fosse um deles. Mais do que tudo, as pessoas carecem de referências, de exemplos. A grandeza contagia. Não só os que lhe estão próximos, mas também o próprio intérprete que se dispõe a praticá-la. Pense como os grandes e, em breve, você será um deles.
Não tema jamais, meu filho, o veredicto das urnas. A vitória, quando conseguida, fala por si. Já as derrotas, por mais amargas que sejam, trazem consigo importantes e imprescindíveis lições. Elas nos impõem, sobretudo, a humildade. Nunca fuja do bom combate. Ele sempre engrandece a todos, vencedores e vencidos.
Tenha sempre em mente, Ricardo, que política não é profissão. Dedique-se aos estudos com afinco. Não se contente, apenas, em ser um bom advogado. Busque ser o melhor, dentro das suas circunstâncias, aptidões e limitações. Somente assim você conquistará o apreço e o respeito de seus pares. E isso, por si só, já representa meio caminho andado. A fortuna abençoa e protege os bravos. Seja um deles e o universo, com certeza, conspirará a seu favor. Ninguém, é certo, confiará em você e em suas idéias, se você mesmo não demonstrar, de forma cabal, que também acredita.
Mais do que dinheiro, renome ou simpatizantes, o meu legado a você é a minha sagrada e sincera bênção e a virtude, duramente conquistada em mais de duas décadas de vida pública, de nunca, jamais, ter o meu nome conspurcado por qualquer suspeita de envolvimento em negócios escusos. Escrevi isto num artigo em honra a meu pai, falecido há quase 20 anos: “Ele era justo e bom; digno e honrado. Abençoado é aquele a quem Deus permite apor esses quatro adjetivos ao seu epitáfio.”
Seja assim, meu filho. Seu caráter, na vida pública, será, sem dúvida, o seu maior patrimônio. Será o único bem que, em qualquer circunstância, ninguém logrará tirar de você. Seja correto, meu filho, e, ganhando ou perdendo, eu sempre terei orgulho de você.
Quando, em palestra numa Faculdade de Direito, perguntaram a Abraham Lincoln se era possível, como advogados, serem políticos honestos, ele, sem pensar, respondeu: “Se vocês acham que não, tratem de ser honestos sem se atreverem a ser políticos…”
O que tenho a lhe dizer, meu filho, no fundo, é isso.
Seus ideais, Ricardo, serão para você como as estrelas. Você nunca poderá alcançá-las. Mas é orientando-se por elas que você, mais cedo ou mais tarde, haverá de chegar ao seu destino.

 

 

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 26 de Outubro de 2007.

6 Comentários em “Conselhos úteis ao meu filho”

  1. Francisco says:

    Bom dia, Sr. Mellão. Texto ótimo e isso não é novidade. Foi publicado em 2007, porém pode ser publicado daqui a cem anos que permanecerá atual. Política é mais que profissão, é comprometimento. Para desempenhar corretamente qualquer tarefa tem que ter paixão e ser motivado por razões também corretas, do contrário os resultados serão desastrosos. A vitória não deve ser o único objetivo, apesar de ser a força por trás do empenho, mas é interessante notar que aprendemos mais com a medalha de prata do que com a de ouro. Abs!

  2. ana amelia mello franco says:

    Parabens grande conselho vou repassar para Antonia !

  3. Carlos says:

    Carlos Lacerda é o exemplo maior de politico minusculo

  4. léo guedes says:

    Efetivamente, se alguma coisa podemos passar e deixar como herança aos nossos filhos é a nossa conduta, o nosso próprio comportamento diante dos cenários circunstâncis a que todos nós estamos sujeitos. Temos diante de nós dois desafios tremendos, sendo que um ainda é mais difícil do que o outro. Observando a natureza humana, percebemos que temos a potencialidade de buscarmos em nós a perfeição. Profissionalmente muitos de nós se destacam, pois atualizaram essa potencialidade através de esforços pessoais, mas o aperfeiçoamente de caráter é uma batalha muito mais dura e severa para se buscar. Vemos que as duas são distintas, pois encontramos homens identificados pelo resultado extraordinário em suas profissões, mas que hesitamos em distinguí-los como exemplos de caráter, de conduta ética, de moral. Portanto, há uma pefeita linha demarcaória entre ambos. Uma se dá em forma de atividade, de tarefa, digamos assim, de sobrevivência. A outra, muito mais difícil de ser realizada, se dá no campo psicológico, o que chamo estado de ser e que se realiza no viver.
    Por costume, aceitamos que um homem que atingiu um degrau distinto no que consideramos status social, finaceiro, político, religioso, leva consigo as qualidades de conduta e comportamento. Nem sempre essas duas citadas potencialidades andam de mãos dadas. Só para citar um caso curioso, aquele enxadrista que determinou o fim da hegemonia russa no tabuleiro, Fisher, se não me engano, um gênio da racionalidade, pelo menos diante do xadrez, costumava urinar na perna de algum adversário mais distraído numa prova contundente de que, se de um lado mostrava sua genialiade como enxadrista, por outro lado deixava se mostrar como uma crianca mal educada e inconveniente. Por que uma profissão é menos difícil de ser alcançada do que fazer-se mais humano? Para quem sabe essa resposta, não há nenhuma novidade sob o calor dos raios solares.

  5. José Itamar Abreu Costa says:

    Belíssimo e oportuno artigo. Assim tento fazer na minha profissão de Médico. Hoje com duas filhas Médicas e uma fisioterapeutica sempre as acomselhos para serem sempre coretas e acima de tudo éticas

  6. Mari Gava P.Toledo says:

    Muito agradável, ler e refletir,sobre esse artigo. Nos dias de hoje, nada mais oportuno,como disse José Itamar,acima.

    Me dá, tranquilidade e um certo “conforto” ser sua eleitora. Falar em seu nome com confiança e segurança é um prazer. Comentar com meu filho sobre este artigo, é uma oportunidade de reflexão e educação para ele.

    Esse artigo me passa a mensagem de uma pessoa que não só é “Bem intencionada” (o que já é um ganho “ultimamente”, não é mesmo?)…Porque refletirá em melhores caminhos, alimentando ideais e inclinando-se ao bem e a justiça. Porém, a boa intenção passa sem maiores benefícios, caso não se ligue à esfera das realidades imediatas na ação reta.

    Necessário é meditar no Bem; todavia, é imprescindível executá-lo.

Deixe um Comentário