Decifrando Lula

Publicado por João Mellão Neto Em 22 Jan 2010

LulaPiscaAMar_jpgO presidente Lula, segundo as últimas pesquisas, conta com a aprovação de mais de 60% do eleitorado brasileiro. Esse extraordinário apoio popular, somado à folgada maioria que o governo tem no Congresso, faz muitos alcoviteiros, no Palácio do Planalto, começarem a cogitar da hipótese de sua reeleição. Para tanto basta enviar uma proposta de emenda constitucional ao Parlamento – que não tenho dúvidas de que seria aprovada – e deixar que as urnas façam o resto. Isso é péssimo para a democracia. Até mesmo no período autoritário, os militares cuidaram religiosamente de manter o rodízio no poder.
Por ocasião do 1º de Maio, quando as duas maiores centrais sindicais promoveram atos de apoio ao governo, eu escrevi aqui que, entre outras coisas, o fenômeno representava o início do fim da democracia liberal em nosso país. Democracias fortes não podem prescindir de oposições fortes. Quando estas deixam de existir, está aberto o caminho para governos autoritários.

Logo após a tragédia de Congonhas, depois de mais de dez meses de caos aéreo, eis que as pesquisas de opinião demonstram que a popularidade do presidente Lula permanece inabalável. Pudera! Uma ínfima parcela da população (8%) faz uso de aviões e, mesmo assim, esporadicamente. A imensa maioria não relacionou a queda do Airbus às disfunções do governo e, entre os que o fizeram, praticamente todos estão dentro do perfil daqueles cuja opinião sempre foi de reprovação ao governo.
Lula é um fenômeno e antes de atacá-lo convém compreendê-lo. Os segmentos de maior renda e escolaridade não o apóiam. O mesmo acontece, em grande parte, com os eleitores da Região Sul e com os habitantes de São Paulo, Estados onde Geraldo Alckmin o bateu nas últimas eleições. Não por coincidência, são locais onde vive a parcela mais esclarecida da opinião pública brasileira. O restante da Nação é lulista, o que lhe garante, na média geral, altíssimos índices de aprovação e popularidade.
Lula pode ser inculto, mas não é ingênuo. Ao contrário, é dotado de intuição privilegiada, que foi profundamente lapidada em seus muitos anos de militância sindical e política. Tão forte e patente é seu tino político que a ala intelectual do PT – formada por pernósticos e soberbos professores universitários – não sente nenhum pejo em reverenciá-lo. Para eles, Lula é uma força da natureza. Uma professora-titular da USP, recentemente, chegou a descer de sua respeitável cátedra para afirmar, deslumbradamente: “Quando Lula fala, o mundo inteiro se ilumina!”

Lula chegou à Presidência, após três eleições malogradas, graças à sua oratória inflamada e à disciplinada, competente e entusiasmada militância de seu partido, o PT. Não houve, na História do Brasil, um partido de massas cujos membros fossem tão convictos e idealistas como o PT o foi até chegar ao poder. Mas, se sobrava entusiasmo, faltavam experiência e projetos minimamente viáveis. Lula não demorou a perceber essas deficiências. Ainda antes de tomar posse, contrariou inúmeros setores do partido ao anunciar que sua política econômica seria uma continuidade da de seu antecessor, fundada no quadripé juros altos até quando for necessário, câmbio e preços livres, superávit primário nas contas públicas e respeito incondicional aos contratos. Ora, são estes os pilares básicos da economia de mercado, tachada por seus detratores como “neoliberal”.
Ao mesmo tempo, o presidente constatou que as políticas sociais idealizadas pelos intelectuais do PT, na prática, eram inviáveis. O Fome Zero, por exemplo, até hoje não passou de mero slogan. Novamente Lula, sempre pragmático, tratou de se valer das experiências do governo anterior. Havia, então, três programas de transferência de renda às camadas mais carentes da população: o Bolsa-Escola, que garantia uma remuneração mínima às mães que mantivessem seus filhos na escola; o Bolsa-Alimentação, que fazia o mesmo com as mães que levassem seus filhos regularmente aos postos de saúde; e o Vale-Gás, que subsidiava gás de cozinha para as famílias reconhecidamente desvalidas.
Lula fundiu os três programas em um só, deu-lhe o nome de Bolsa-Família, multiplicou a sua abrangência e o resultado está aí. O programa é o principal – se não o único – pilar de sustentação dos altíssimos índices de aprovação do governo.
O governo Lula não é de esquerda. A sua política econômica é austera, Programas de transferência de renda eram defendidos até por Milton Friedman, o papa do pensamento neoliberal, o comando das pastas da Saúde e da Educação está nas mãos de ministros técnicos e Lula só faz concessões às alas esquerdistas que o apóiam nas áreas de Relações Exteriores e Reforma Agrária.
Lula, definitivamente, não é a quimera que tanto nos assombrou em 2002, ano em que, pela primeira vez, venceu as eleições. Ele merece ser celebrado muito menos pelo que fez do que por aquilo que se absteve de fazer. O simples fato de não ter mexido na política econômica legada por FHC é um feito que merece rojões. Em grande parte auxiliado pela conjuntura externa altamente favorável, ele pode agora colher os frutos de sua decisão, com os bons indicadores que a economia apresenta.
Por outro lado, no restante, a sua gestão deixa muito a desejar. O Estado foi totalmente loteado entre os companheiros do PT e dos partidos aliados, sem que fosse levada em conta a qualificação dos indicados. Nenhuma das urgentes reformas de que a Nação necessita foi ou será empreendida neste governo. A infra-estrutura física do País, por abandono, está totalmente sucateada.
A Lula, decididamente, falta vocação para estadista. Não tem a determinação dos predestinados e é incapaz de promover revoluções porque, por temperamento, tem na inércia a sua principal aliada. Seu nome não ficará na História, porque esta não dá guarida aos pusilânimes. Resta-lhe um único consolo: ele sempre será lembrado como um exemplo a não ser seguido.

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em  17 de Agosto de 2007.

13 Comentários em “Decifrando Lula”

  1. Bruno says:

    Ah, artigo do “O Estado de São Paulo”. Agora sim fez sentido o ressentimento todo rs

  2. Francisco says:

    Boa noite, Sr. Mellão. Lula e o PT sempre me deixaram de pé atrás, tanto que ele nunca teve meu voto. O Partido do Contra (oposição é outra coisa) era incapaz de dar voto favorável a qualquer solução tb favorável ao país. A filosofia terrorista do PT (se é que havia algum tipo de filosofia) deveria ser motivo de medo por parte do eleitorado, logo confesso que sua eleição, em 2002, me pegou de surpresa. Muitos eleitores se arrependeram depois, mas acredito que bastava um pouco de bom senso para chegar a uma conclusão de que havia algo de errado na atitude terrorista e divisora do PT. Tarde demais, ele e sua equipe estudaram e fizeram trabalho de casa nesse tempo todo, chegaram ao poder sabendo muito bem por onde caminhar para garantir voto e aprovação neste que foi o melhor momento para Lula se eleger, até nisso ele teve sorte, inacreditável: se fosse quatro anos antes, pelo menos, meteria o pé pelas mãos. Lula sempre foi de colocar um contra o outro, e é assim até hoje. Lula é um divisor. Penso que estamos amarrados pois, como o Sr. mesmo colocou,” a urna faz o resto”. Outra bem colocada: até na ditadura havia alternância de poder. Governo Lula é capaz até de fazer ditadura mal planejada e executada. Abs!!!

  3. Caro Mellão, bom dia!
    Pois é; verdade, que é verdade mesmo, dura! Um artigo de 2007 e, apenas, o índice Delle piorou, ou seja, subiu. Lógica: O que é bom para o PT é péssimo para o Brasil!
    Um grande abraço.
    J.P.

  4. P.Chilitti says:

    Prezado Mellão,

    Foi um prazer reencontrá-lo através deste blog. Tivemos algum contato há muito tempo, nos idos da militância no saudoso PL de Álvaro Valle, Afif Domingos, João Mellão e tantos outros…
    Depois disso, vivi algum tempo no Amazonas, depois em Roraima, ficando meio desligado, por questões de atribulações do trabalho, do mundo civilizado (he he he … – brincadeirinha, pois são estados lindos, com um povo que recebe os forasteiros de outros estados de braços abertos e com muita cortesia) e finalmente voltei para o São Paulo, fixando-me em Bauru, no meu querido interior, sendo que, com alguma frequência, trafego pela estrada que liga São Manuel a Avaré e que homenageia um seu antepassado. Já gravei o endereço do blog nos meus favoritos, e vou tornar-me habituée, além, é claro, de recomendá-lo ao meu círculo de amizades, pois vemos tanta mediocridade e inutilidades circulando na web que, quando encontramos uma verdadeira jóia como os seus artigos, temos que divulgá-los ao maior número de pessoas possível. Um grande abraço. Paulo L.M.Chilitti

  5. Ricardo Zanoni says:

    Matéria abaixo retirada do Portal Comunique-se.

    E o Sr. Mellão ainda acha que ” O Cara” ainda não é estadista nem ficará para História. Que fraco analista político, né não ? !!!

    Pesquisa mostra que Lula está certo: imagem do Brasil no exterior é positiva

    Da Redação

    A favor do que garante o presidente Lula, a imagem do Brasil na imprensa internacional é positiva. Uma pesquisa feita pela Imagem Corporativa sobre o terceiro trimestre deste ano mostra que 85%, das 783 matérias analisadas, retrata positivamente o País. No último mês, Lula chegou a dizer que a imprensa nacional é “azeda” e “joga pra baixo”, enquanto que os veículos estrangeiros retratam positivamente o Brasil.

    A pesquisa foi feita em 14 dos principais jornais do mundo, como Washington Post, Le Monde e China Daily. Segundo o estudo, focado nos cadernos de economia e política, fatos como a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, acordo militar firmado com a França, exploração de novas reservas de petróleo, foram importantes para a boa imagem do País.

    De acordo com a pesquisa, os três jornais que dão mais destaque para o Brasil são: Financial Times (16%), Wall Street Journal (15%) e Clarín (13%).
    A maioria das matérias coloca o País como um player internacional (26%) pelo relacionamento do Brasil com órgãos e representantes estrangeiros em reuniões como o G20 e Bric.

    Comparado com o segundo trimestre, que teve 81% de avaliação positiva, a imagem do Brasil melhorou. Entretanto, alguns assuntos, como divergências comerciais entre Brasil e Argentina, o papel da ditadura brasileira na queda do presidente chileno Salvador Allende, e a devastação da floresta Amazônica e do cerrado, terem sido retratados como negativos para o País.

    A imprensa internacional também destacou o Brasil como um bom lugar para investimentos. Mesmo quando o assunto era a crise em Honduras, o País foi retratado positivamente por 85% das reportagens. Sobre a gripe suína, a imprensa estrangeira não fez muitas citações ao Brasil, mas das que foram feitas, 53% eram positivas. A respeito da vitória da candidatura aos Jogos Olímpicos de 2016, 96% das matérias destacaram o aspecto positivo do fato.

  6. Elyseth Millei says:

    A popularidade de Lulla se deve, como muito bem abordado por Vc
    ao programa Bolsa Família (“herança maldita” do governo anterior, como a política economica mas nunca reconhecido) e a sua facilidade de oratória; ele não saiu do palanque mesmo após sua eleição. Muito bem abordado o fato de os programas de desenvolvimento de infra-estrutura não terem vez, o que impede o
    crescimento e competitividade do País e maior geração de emprego,
    o que levaria a diminuição do número de brasileiros dependentes do
    Bolsa Família – mas aí está a chave da questão: diminuindo os dependentes do programa assistencial, melhorando o nível de educação e esclarecimento do povo a aprovação dele (Lulla) não seria tão alta, não é?

  7. Luiz Sperry says:

    DECIFRANDO MELLÃO,
    Tem andando silencioso…gostaria de saber sua posição sobre o mensalão do DEM.

  8. Selma says:

    Sr. Melão, em que planeta o sr. vive? No planeta terra com certeza não é.

  9. Avellar says:

    O presidente Lula da Silva, cujo índice de aprovação está perto de 82%, o mais alto desde maio passado (assim como a avaliação positiva de seu governo, na casa de 71%. Editorial de o Estado de S.Paulo.

  10. Victor Hugo Marques Pimentel says:

    Muito me espanta a incapacidade das pessoas em apenas interpretar um texto tão direto e simples como este.

  11. Carlos says:

    esse papo de “maioria das pessoas esclarecidas” e “elite intelectual” nao apoiarem lula é a maior falácia do presente texto, excessivamente rancoros na minha opiniao.Quer criticar o governo? faça como o Brizola, atinga os pontos que realmente merecem destaque, como a educação, a inexistente reforma agraria, etc…

    Essa retorica tipico do DEM, de considerar que o presidente foi eleito “porque a maioria é pobre e burra” é a mesma que fatalmente fara o PT vencer as proximas eleições.

  12. do interior says:

    srs: Com a moeda mais sobrevalorizada do mundo(ao contrário da China,por exemplo),e os maiores juros também,acrescida do brutal recolhimento do depósito compulsório(47% no Brasil,enquanto no resto do mundo é até de 10%),temos que o real é uma moeda cara e que poucas empresas têm caixa para anunciar nas TVS -Apenas bancos,casas Bahia etc.
    Aí entram as generosas empresas estatais:BANCO DO BRASIL,CAIXA,PETROBRÁS ETC; que mandam na programação, inclusive nos noticiários.
    Daí a exposição diária e simultânea do LULLA nas TVS.
    Assim fica fácil permanecer na lembrança da população…
    PS:Em recente pesquisa LULLA apareceu em primeiro lugar sobre quem seria a pessoa mais confiável no Brasil.
    Em segundo lugar foi o SILVIO SANTOS…

  13. Sergio says:

    Lula não precisa ser decifrado. É fácil constatar que êle é o resultado do apagão político brasileiro comtemporâneo. Devidamente treinado pelo sindicalismo pelego ele ocupou espaços junto ao povo que ainda troca voto por qualquer coisa, inclusive o Bolsa Família. Apóia tudo o que não presta: MST, Chaves, Fidel, Ahmadinejad e vai por aí afora. É contra a competência. Com certeza não é o exemplo que quero para meus filhos e netos. O que se pode esperar de quem nunca foi fã do trabalho honesto. E ainda tem os petralhas de plantão, que como em qualquer máfia sempre estão atentos para afastar qualquer opinião democrática.
    INFELIZMENTE ESTAMOS DE BRAÇOS CRUZADOS A ESPERA DE UMA OPOSIÇÃO EFICIENTE.

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