A humanidade viveu épocas mais ou menos interessantes, em geral muito bem delimitadas, através dos séculos. Um estudo recente, feito por uma associação internacional de revistas, perguntou a duas centenas de renomados historiadores quais teriam sido a época e o local mais interessantes para se viver no segundo milênio, que se encerrava. A opção que obteve maior número de indicações foi o século 15, em Veneza. A Belle Époque – período que abrange desde o fim da Guerra Franco-Prussiana até o início da Grande Guerra, em quase toda a Europa – também foi citada. (Não faz sentido falar em Primeira Guerra Mundial porque, na época, ninguém imaginava que haveria uma segunda.)
“Deus me poupou de viver numa época desinteressante.” Tais palavras resumiam a obra e a vida de um grande historiador universal. Ele tinha razão. Não há nada mais frustrante para nós, jornalistas – que não passamos de aprendizes de historiadores – do que cobrir um cotidiano ameno, tedioso, em que nada que possa vir a interessar aos leitores acontece. Nós, aqui, do Espaço Aberto, nesta página A2 do Estado, somos encarregados de cobrir a grande política, emitir juízos minimamente ancorados no bom senso, fazer diagnósticos e arriscar alguns prognósticos sobre para onde caminha a Nação.
Já 2010, daqui a dois anos, será, sem dúvida, um período política e socialmente interessante. Haverá eleições gerais no âmbito federal e estadual e parciais, no municipal. Há a suposição de que o Brasil saia extremamente modificado dessas eleições.
O quadro intricado que se apresenta é o seguinte:
O presidente Lula, extremamente popular, não se pode apresentar como candidato à reeleição, uma vez que já cumpriu dois mandatos no cargo.
Não há nenhuma figura popular, ou mesmo de expressão, em seu partido (PT)com mínimas chances de disputar e ganhar a eleição.
Qualquer hipótese extraconstitucional, dado o clima político de extraordinária normalidade em que o País vive, já está previamente descartada.
O Partido dos Trabalhadores, em grau maior que os demais partidos, depende crucialmente do domínio da máquina administrativa para sobreviver. É nela que acomoda os seus quadros, é do dízimo pago ao partido por eles que se equilibram as finanças partidárias. Não é de se acreditar que a zangada militância petista assista passiva, de braços cruzados, sem nada fazer, à derrocada do poder.
O que, então, ocorrerá? É humanamente impossível prever. Mas, com certeza, não será uma acomodação ortodoxa nem sequer arranjada bem aos moldes da índole conciliatória nacional. Talvez a militância petista arrefeça os seus ânimos com a perspectiva de, dali a quatro anos, com Lula candidato novamente, gozar mais oito anos no comando do Executivo. Mas que a transição que se vislumbra será traumática para o Partido dos Trabalhadores, disso não resta a menor dúvida.
A outra incógnita que se coloca – infelizmente, só para daqui a dois longos anos – diz respeito a que papel ideológico desempenhará a oposição PSDB-DEM tão logo chegue ao poder.
Uma obra intocável e perene dos petistas foi a criação do programa Bolsa-Família. A esta altura, pouco interesse existe em ficar discutindo se o programa é legítimo ou ilegítimo, se auxilia efetivamente os pobres ou não. O fato é que o famigerado programa está aí, atinge cerca de 11 milhões de famílias e qualquer tentativa de desmobilizá-lo seria o suicídio político do governante que ousasse fazê-lo.
A Nova Direita que assumirá o poder com a aliança de tucanos e democratas (e não há razão para chamá-la por outro nome) há que assumir-se como tal e exercer políticas voltadas para o fortalecimento do capitalismo (ou do “capitalismo social de mercado”, que se conceda…).
Não espere, também, a Nova Direita encontrar condições tão favoráveis, no campo financeiro internacional, como as que o afortunado Lula encontrou. A era que se está encerrando, segundo os analistas, foi a de maior liquidez nas finanças internacionais em várias décadas. É por isso que continuo insistindo que é impossível comparar as performances de Lula e Fernando Henrique. Que FHC promoveu reformas institucionais de monta em seu governo, isso é patente. Que Lula não se encorajou a se empenhar em reforma alguma, isso também é evidente. Mas se Lula foi beneficiado por um quadro das finanças internacionais privilegiado, a mesma sorte não teve o seu antecessor. Além do mais, os petistas hão de reconhecer, as principais bases do governo Lula foram todas elas herdadas da gestão FHC. O Bolsa-Família nada mais é do que a junção de vários programas já então em curso, como o da Saúde, o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação e o Vale-Gás. O mérito de Lula foi unificá-los, agigantá-los e torná-los o que são hoje.
Outro mérito que cabe a FHC foi a formulação da atual política econômica, que pôs em prática numa época tormentosa e a passou para Lula já na bonança. Lula, por sua vez, teve o bom senso e a determinação de prosseguir com tal política, contra a vontade de todo seu partido e de sua corrente ideológica.
Não foram poucas as vezes que presidente Lula teve de enfrentar o “arrastão ideológico” de seu partido, a ponto de se poder afirmar que, se oposição ele teve, ela estava, por inteiro, concentrada em seu partido.
Não há, portanto, por que compará-los. Já dizia o velho sábio: “Um homem não é apenas um homem, ele é também as suas circunstâncias.”
O ano de 2010, sem dúvida alguma, não será uma época desinteressante.
Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 18 de Janeiro de 2008.




Boa noite, Sr. Mellão. Como sempre, é um prazer ler e comentar seus textos. Já seriam bons se o Sr. não escrevesse com frequencia e clareza sobre o atual governo. São melhores ainda pelo Sr. escrever com frequencia e clareza sobre o atual governo. Um trecho importante: “os petistas hão de reconhecer, as principais bases do governo Lula foram todas elas herdadas da gestão FHC”. Impossível, lamentavelmente. Isso não faz parte da política e atitude obtusa do time do Partido dos Trabalhadores. Não faz parte, também, de quem apóia o Partido dos Trabalhadores. Assim como comentei em seu penúltimo post, tomando a liberdade de acrescentar meia dúzia de palavras, FHC e Lula têm em comum o quê? Um time que ama os dois e outro que odeia os dois. Porém, há uma diferença: quem ama FHC, sabe os motivos para amá-lo e quem odeia, desconhece realmente os motivos para tal, só odeia. Por outro lado, quem ama Lula, não tem exatamente certeza o por que de tal carinho, gosta sei lá por que, por conveniência, e quem odeia sabe muito bem o por que odiá-lo. Sr. Mello, escrevo sempre em seus posts porque, além de ser esse nosso espaço, a parte dos comentários, se satisfação não é motivo de silêncio, o contrário, insatisfação, é motivo de barulho! Se há uma pessoa séria que diretamente faz parte da política (raro!) e que está disposta a tecer comentários sinceros e sem rodeios (a minha parte é a mais fácil, adimito, pois estou atrás do monitor), então aproveitarei cada oportunidade. Abs!
Ótimo artigo João e ótimo comentário Francisco.
Cacetada……..
Na época do FHC, o Brasil quase quebrou com a moratória da ridicula Argentina, com a quebra da Rússia e dos Tigres Asiáticos. Hoje, com a maior crise de todos os tempos, o Brasil, segundo os maiores analistas dos maiores jornais e revistas do mundo (The Guardian, The New York Time, Times Magazine, Washingston Post, The Economist, Le Mond, Le Figaro etc..), não sentiu os efeitos e pulou a marolinha tranquilo.
Não votei no Lula, mas, hoje enxergo os beneficios que esse homem trouxe à classe trabalhadora e ao país. Só não enxerga o “cego” que não quer enxergar, ou melhor, finge não enxergar, os idotas quebrados e puxassacos dos “mor” e àqueles sanguessugas que sempre sugaram o país e hoje, com as tetas apartadadas, só fazem criticas desmedidas.
Não sei se votarei na Dilma, mas nos demotucanos com certeza não. Talvez vote no Ciro. Porém temos que ter bom senso e dar valor a quem de fato merece. E esse grande estadista, que hoje governa nosso país com o coração, realmente, merece nosso apreço, mesmo dos que não gostam (por razões óbvias) dele.
Sr. Melão…
Realmente não dá para comparar as últimas administrações no Brasil. Seria o mesmo que comparar o céu e o inferno – há os que gostem; o filé mignon com o ovo frito – tem uns que adoram; os sérios dos canastrões (principalmente àqueles que posam para as fotos com a chegada da vacina anti-gripe A, ou que imputam os genéricos como dele); o ótimo do péssimo e etc…
São duas gestões distintas, enquanto uma vivia nas barras da saia americana, outra, impõe respeito. Uma privatizou tudo, entregando o patrimonio nacional para os amigos – só o gato sabe onde está o dinheiro – outra, eleva a Petrobrás – que não figurava nem entre as 500 – a ser a nona maior empresa do mundo. Numa os juros do BC chegaram aos 44%, outra 8.75%. Uma o Presidente saia com a cominitiva para dizer amém, outra, leva divisa para os empresários – a exportação antes era de 80 bilhões, esse ano chegará, mesmo com a desvalorização do real, aos 300 bilhões; antes o salário era de 85 dolares, hoje está próximo dos 300; antes uma cesta básica – desculpe-me se você não compra isso – custava mais de meio salário minimo, hoje custa um quarto e etc… e etc…
Só para terminar: antes o Presidente Brasileiro não era lembrado nem aqui no Brasil, hoje é o mais popular do mundo. Antes o Brasil era conhecido como turismo sexual, hoje, por oportunidades.
REALMENTE NÃO TEM COMO COMPARAR.
Prezado Melão:Realmente 2010 está sendo um ano interessante,com o PT mostrando para que veio.Mesmo que FHC não tivesse participado do Plano Real,fortalecido as instituições bancárias para nos proteger de crises,não estimulado os debates democráticos,fortalecendo a nossa democracia,as privatizações,que as vejo com bons olhos,mesmo que não tivesse feito nada,já teria feito muito por jamais ter ameaçado a nossa democracia e a nossa economia como faz Lula com este decreto do PNDH.Foi a pujança da economia brasileira,baseada na livre iniciativa e agricultura produtiva que proporcionou riquezas e,conseuqentemente ,distribuição de renda para que novos integrantes de classe média aparecessem.As pessoas precisam entender que foram as bases lançadas por FHC para a nossa economia que proporcionou a Lula conseguir o que conseguiu.A Petrobrás não teria se desenvolvido sem a abertura do seu capital;A Vale ídem.Mas o problema maior é a tentativa do retrocesso democrático e econÔmico com este PNDH.É isto que o cidadão que tem simpatia pelo PT precisa ver pois não é possível que defendam o indefensável.A mesma democracia que os proporcionou a conquista do Poder,hoje,é atacada com este PNDH.Portanto,abertamente peço:votem num partido que defenda a democracia,que não tem como meta o controle da imprensa,da mídia e que não tem também como meta trazer incertezas para os nossos competentes produtores rurais,que tantas riquezas produzem,com estímulos à invasores de terras.Então,mais do que nunca,olhem aqueles países vizinhos que flertaram com o marxismo e vejam o que aconteceu:empobrecimento,populismo,racionamento,fechamento de rádios,TVs e violação dos direitos humanos.Quando estiverem na boca da urna,não se enganem pois o lobo está vestido de cordeiro.
Artur diz:
Analises comparativas desse governo com outro costuma cair nas retóricas ideologicas tão contumaz aos políticos brasileiros.
Apesar do programa de governo extremamente populista, Lula fez um bom governo? Apesar do PT, acredito que sim, que Lula fez um bom governo.
Agora, a atual oposição PSDB-DEM tem cacife pra tocar o país?
Não é tarefa fácil, o Brasil ainda tem graves problemas sociais que precisam ser encarados de frente, sem “firulas”. Lula, com seu populismo e imagem messianica, conseguiu algum avanço no social, embora seu partido tenha “arranhado” a imagem de nossa frágil democracia. Mas democracia é isso, é alternancia de poder.Chegou a hora de transição. Esperemos que quem venha a assumir o poder, o faça dentro dos principios da democracia e com muito espírito cívico.
O Sr. DALMO IVANI já foi contundente no seu post. A diferença mostrada por ele é cristalina. Desnecessário outra demonstração. Contudo vou gotejar ainda aqui algumas fatos reiais para consolidar a diferença entre FHC X Lula. Ou seja, o banho de administração que este está dando naquele. Segue abaixo um pouco, voltaremos com mais realidades.
FHC elevou dívida pública para 57% do PIB. Lula fê-la cair para 38%.
Encontrei outro dado bastante interessante no site do IPEA, e elaborei um gráfico. Trata-se da evolução da dívida pública brasileira, em % sobre o PIB, de 1994 até o final de 2009. Os números mostram bem o desastre que foi o governo FHC, e como é risível que os tucanos agora se arvorem em paladinos da gestão pública. FHC pegou o Brasil com uma dívida pública de 32% do PIB e elevou-a para 57%! O gráfico mostra bem o golpe aplicado por FHC na economia brasileira, com vistas a se reeleger em 1998. O ano aleitoral de 1997 começou com uma dívida pública de 30% do PIB. Em janeiro de 1999, depois de se eleger no primeiro turno, o país recebe a conta: dívida pública de 47%!
Não sei se vocês se lembram de que o governo paga juros altíssimos por essa dívida, de forma que essa irresponsabilidade tucana custou centenas de bilhões de dólares para o contribuinte brasileiro. Depois acusam o PT de ser gastador…
No governo Lula, a dívida pública caiu para 38% ao final de 2008 e só voltou a crescer por conta da crise internacionais, a maior desde a II Guerra, mas mesmo assim, de forma moderada, fechando o ano passado em 43%.
É, de fato, a gestão tucana, sobretudo a primeira, registrou alguns ganhos sociais, mas de forma insustentável, endividando-se fortemente. Eu queria saber de onde foi que saiu a lenda de que o PSDB é bom gestor. Desde quando endividar-se de maneira tão explosiva é fazer boa gestão?
Volto com mais uns drops para destacar a grande diferença entre os governos de FHC X Lula. Este sempre para melhor.
O Brasil emerge, nos estertores da maior crise econômica desde a II Guerra, com um mercado de trabalho ainda maior do que aquele com que entrou.
A geração de empregos na era FHC foi medíocre, porque o governo era incompetente. Por isso, sempre que você ouvir falar que Lula deu “continuidade” à política econômica, não acredite, e rebata com os seguintes argumentos:
1) O governo passou a investir muito dinheiro na base da pirâmide social, dinamizando um vasto segmento de cidadãos antes excluídos do mercado de consumo.
2) Houve uma política muito mais agressiva de redução de juros, os quais já atingiram o patamar mais baixo das últimas décadas.
3) Valorização do salário mínimo.
4) Democratização do crédito, através de diversas medidas: criação do crédito consignado; aumento do crédito pelos bancos públicos, ampliação de carteiras, etc.
5) Aumento das verbas destinadas à agricultura familiar.
Lula não mudou a moeda, manteve uma política monetária prudente e conservadora, e deixou o câmbio livre.
A classe média, no entanto, continua repetindo o mantra da continuidade, disseminado pela mídia, com a pachorra de um papagaio. Não é possível, porém, que o bom senso dessas pessoas esteja tão destruído que pretendam desviar os olhos a todas as evidências.
Tem algumas coisas interessantes nesse artigo. Que bom ouvir falar em direita (porque esse papo de “centro”, convenhamos…). O problema é que a Dilma vem aí. Quero só ver.
Meu caro Zanoni!!!!
Parece que vc não entende nada, ou está realmente agindo de uma forma equivocada propositalmente.
A dívida pública aumentou no Governo FHC, pq o governo Federal à epoca assabarcou para si todas as dívidas de estados e municipios brasileiros, para que eles pudessem sanar suas finanças. ENTENDEU???
que só assim se poderia colocar em prática uma Lei, denominada RESPONSABILIDADE FISCAL?!!!! Lei essa que ajudou e muito o seu defendido a ter uma estabilidade financeira, mesmo com a crise no exterior??? Ou seja,o Governo Collor de não muita saudosa memória, iniciou a obra, com a abertura dos portos, o ITAMAR, teve a coragem de comprar o terreno ao permitir o Plano REAL, (que seu defendido tanto pichou e foi contra) o FHC fez os alicerces, levantou as paredes, para que o Lula (e o grande mérito dele foi dar continuidade à obra,mesmo pq manteve no Banco Central um homem que era do PSDB FRANCISMO MEIRELES) pudesse rebocar e pintar. É lógico que o trabalho de reboco e pintura é muito mais visível aos olhos do povo.
Agora não esqueçamos que nos ultimos anos ele esta detonando a RESPONSABILIDADE FISCAL. Jogando benécies para tudo quanto é lado para eleger a Terrorista!? Inflando a maquina do governo contratando muita gente do PT sem concurso, para poder angariar fundos para o partido com o Dizimo que eles são obrigados a pagar ao PT, inflando os quadros de funcionários das Estatais.E muitas delas estão dando muito prejuizo) enfim aparelhando o ESTADO com seus partidários e apaniguados daqueles que o apoiam.
Muito interessante essa tabela, pena que seja FALSA !!!
Sou assinante da The Economist e essa tabela nunca foi publicada.
Mais uma armação do PT para enganar o povo.
Para quem for assinante, o link dessa reportagem é http://www.economist.com/opinion/displaystory.cfm?story_id=14845197
E agora o melhor…a reportagem termina dizendo que o governo Lula só conseguiu resultados positivos porque pegou um Brasil sólido e forte como herança do FHC.
Então senhoras e senhores, cuidado, a máfia do PT mente descaradamente e engana o povo distribuindo tabelas falsas.
Prezado Mauro,
Interessante essa informação postada por vc pois essa tabela tá circulando bastante pela net. Como só tem acesso ao link quem é assinante da revista, seria muito legal se alguém pudesse escanear e circular a materia verdadeira.
Ok! Direto ao assunto: por que vemos Lula como um presidente que proporcionou uma nova vida aos brasileiros, como quem realmente conseguiu mudar a história de muitas pessoas durante seu mandato? Será que seu lado social contribuiu para isso, ou seja, o contato real com o povo durante seu mandato sindicalista? Enquato FHC, sociólogo, não vemos tanto êxito quanto Lula. Olhando pelo ângulo de que um sociólogo estuda a sociedade, e procura remédios para suas doenças.