Sou, mesmo, um pequeno burguês

Publicado por João Mellão Neto Em 28 Dec 2009

consciencia_moralHá pouco mais de dois anos, um renomado autor de novelas globais declarou em uma entrevista à revista Veja que, segundo as diversas pesquisas que tinha em mãos, podia afirmar que estava ocorrendo certo relaxamento moral na consciência do brasileiro médio. As pessoas, dizia ele, já não condenavam certas atitudes totalmente antiéticas, por parte dos personagens das suas tramas, desde que agir dessa forma fosse essencial para que atingissem os seus objetivos. Na época ninguém deu a atenção devida a esse abalizado sinal de alerta dado pelo noveleiro. Eu, pessoalmente, confesso que fiquei bastante preocupado.

A média das pessoas não sabe, mas uma das principais razões do sucesso das novelas globais é o fato de a emissora promover sistematicamente exaustivas pesquisas de profundidade, com pessoas representativas de cada um dos diversos segmentos sociais, para saber o que a opinião pública acha ou espera de cada personagem. Pode-se dizer que as novelas são, na prática, as “instituições” mais democráticas da Nação. Não existe enredo inflexível ou pré-elaborado. O que há, no máximo, é uma sinopse bastante vaga. As tramas evoluem de acordo com o que o público almeja; os personagens crescem ou, até mesmo, desaparecem, em razão da receptividade que logram obter junto aos telespectadores. A Globo não brinca em serviço. O custo de produção de um único capítulo de novela está entre R$ 50 mil e R$ 100 mil. O milionário faturamento em comerciais varia de acordo com os pontos de audiência. Em outras palavras, a emissora não pode se dar ao luxo de errar. Esta é a razão pela qual as pesquisas são realizadas com tanta freqüência. Todos os personagens têm de se comportar de acordo com o que a sociedade espera deles. Um personagem que represente um jovem ambicioso da classe C, por exemplo, tem de agir de modo coerente com as expectativas que se tem em relação a uma pessoa com tais características. Caso o personagem tenha atitudes inautênticas, as pesquisas captam isso e o autor ajusta o seu comportamento.

É por essa razão que as pesquisas globais têm de ser levadas muito a sério. Quando um autor de novelas afirma, como é o caso, que está ocorrendo um “relaxamento moral” na sociedade, longe de ser um mero palpite, ele sabe muito bem o que está dizendo. Pode-se esperar, porque as conseqüências disso não tardarão a surgir. E não se restringirão, infelizmente, ao terreno da ficção.

De fato, pouco tempo depois, ocorreu a série de escândalos políticos relacionada ao “mensalão”. Em épocas normais, o presidente da República seria impedido e os parlamentares envolvidos jamais lograriam passar novamente pelo teste das urnas. Não foi nada disso o que ocorreu. O presidente não só não foi impedido, como também conseguiu ser reeleito e a maioria dos parlamentares corruptos disputou e venceu as eleições de 2006.

Infelizmente, essa tolerância moral e ética da sociedade continua a existir. Os partidos de oposição se esforçam ao máximo para encontrar e denunciar novos escândalos e a sociedade, como que anestesiada, confere ao atual presidente um índice de popularidade raramente alcançado por qualquer um de seus antecessores.

Esse fenômeno é muito grave. Não há tecido social que não se esgarce quando os mais caros valores morais são “relativizados” e os mais condenáveis comportamentos são julgados com tamanha condescendência pela opinião pública. Já vivemos, no passado, em épocas com tais características. E o desfecho, no mais das vezes, foi trágico.

Uma sociedade que, qual a Sodoma bíblica, se descuida dos seus mais elementares valores, merece ser extinta. Como a extinção, a não ser em caso de guerra, é impossível, o que ocorre, quase sempre, é um retrocesso drástico no campo das relações sociais. Todos passam a desconfiar de todos, ninguém acredita mais em ninguém e todo mundo perde muito com isso. Uma sociedade, com tais características, demonstra que, simplesmente, perdeu a sua auto-estima. Quem perde a auto-estima, perde também a autoconfiança. E, sem autoconfiança, nenhum grupamento social ousa empreender ou mesmo assumir riscos. O resultado, a médio e longo prazos, é o atraso, a estagnação e a perda irrecuperável da virilidade cívica – algo fundamental e imprescindível para a evolução e o progresso de qualquer civilização.

É uma pena que seja assim. Ainda nos arrependeremos amargamente de nossa tolerância atual. Um povo que não acredita em si mesmo, não merece o crédito dos outros. Um povo que não se dá ao respeito, acaba não sendo mais respeitado por ninguém.

Ao que parece, o único santuário dos valores morais de nossa sociedade se situa no coração da classe média, aquele segmento social cheio de pruridos que a companheirada petista, desdenhosamente, chama de “pequena burguesia”. Eu sinto que faço parte dela. Eu ainda me escandalizo com cada nova falcatrua oficial, ainda espero que os corruptos sejam exemplarmente punidos, ainda não perdi a capacidade de me indignar. Felizmente, esta camada social, apesar de minoritária, é convicta de seus valores e jamais transige com relação à moral. A sociedade, como um todo, pode temporariamente se afastar do caminho correto. Mas ela sempre, quando se dá mal, volta a centrar-se e a ter como referência esse diminuto grupo de moralistas renitentes. Eu não me envergonho de ser um “pequeno burguês”. Resta-me, por consolo, ao menos o prazer de poder, sem culpa, repousar no meu travesseiro.

Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 29 de fevereiro de 2008.

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8 Comentários em “Sou, mesmo, um pequeno burguês”

  1. Rogério Gandra Martins says:

    Caríssimo Professor Dr. João Mellão,
    Que esplendor de artigo, mais uma vez!
    O relativismo moral, de fato, tornou nossa sociedade doente eticamente.Hoje, infelizmente, vivemos no País do “vale tudo”.E a história demonstra que todas as civilizações que alcançaram este patamar terminaram, “nada valendo” pois se engraqueceram e foram dizimadas, conquistadas, etc… .
    O relativismo moral de nossa sociedade aceita tudo, desde que não seja uma verdade absoluta.Vivemos na época de que tudo pode ser relativizado…. até chegarmos à honra, caráter, honestidade e outros valores inerentes à índole do ser humano.
    Uma sociedade de que não aceita ao mínimo verdades básicas, vive em uma eterna mentira…e viver da mentira faz com que qualquer forma de ideal perca sua nobreza em qualquer campo da vida.
    O mensalão provou que não basta falar a verdade, pois frases como “não vi e não ouvi” deformam esta verdade em algo questionável.
    O relativismo moral é o “cupim” social, que aos poucos e lentamente vai destruindo todo e qualquer valor de uma Nação e quando se percebe o estrago já é mais do que considerável.
    O artigo do senhor fez-me lembrar de uma frase muito pertinente de São Josemaria Escrivá:
    “A transigência é sinal certo de não se possuir a verdade. – Quando um homem transige em coisas de ideal, de honra ou de Fé, esse homem é um homem… sem ideal, sem honra e sem Fé.”
    Dr. João Mellão, parabéns mais uma vez por este brilhante artigo que nos brinda!
    Do sempre admirador e discípulo,
    Rogério Gandra Martins

  2. Ronald Harari says:

    Como sempre expressou meus sentimentos nesse assunto ! Parabens mais uma vez !!!
    Ronald Harari

  3. zelito mellão says:

    João perfeito seu artigo,eu vou contar uma historia triste,mas quando quero ver um filme de terror eu sintonizo a tv senado,aquele bando de picaretas que desfilam na minha tela é fantastico,ali tem personagens que nem holywod conseguiria contratar tal a cara de pau deles;as estrelas mais bizarras Almeida Lima, Seres.Sernei,Renan Gin,e mais uns ciquenta que tristeza para o nosso Pais

  4. Roseli Maia says:

    Mellão, vc sabia que o tema da redação do ENEM 2009 foi sobre a ética? E que a maioria dos estudantes não sabiam do que se tratava?Tenho dois filhos adolescentes e percebo a dificuldade que eles tem em discernir o certo do errado, está tudo bagunçado.

  5. ciro joão bertoli says:

    caro prof. mellão

    sempre brilhantes seus comentários,objetivo, claro e com muita profundidade. sempre fui seu admirador e como cidadão vejo com também muita preocupação o desenlolar deste desgoverno que estamos vivendo e o vies mais preocupante esta exatamente muitissimo bem desenhado no seu brilhante artigo
    feliz 2010 e continue a esclarecer pelo menos os ainda acreditam em mudanças
    um grande abraço. ciro

  6. guimaraes says:

    É , assim caminha a nação brasileira, traída, sequestrada , saqueada. Submersas estão o “ideal de pais digno”. País de pólvora seca – diz o poeta “Bezerra”. Aqui não ficará ninguem honesto nem digno, parece-me o nome deste filme de horror._Abaixo os “PTS e todos os filhos do lixo político…..

  7. Carlos Macedo Jr says:

    Parabéns pelo artigo! Passou para o texto, com muita clareza, o sentimento de um segmento da nossa sociedade, que apesar de sustentar o Brasil, sofre cada vez mais abusos materiais e morais por parte de governantes e pseudo-intelectuais. Faço coro!

  8. Napoleão says:

    Caro jornalista:
    Em 03/5/2002 o sr.escreveu “Ok,Lula, você venceu”.
    Lula não abriu mão de suas ideias e convicções. Ele não o fez durante todo o mandato, muito pelo contrário. Está levando adiante a revolução silenciosa e cultural ao país, perpetuando o PT no poder. É bem provável que receba o próximo Nobel da Paz e que sua vontade somada ao marketing político vençam novamente e coloquem a ex-guerrilheira, ex-quadrilheira e ex-ladra muito bem blindada confortavelmente lá. O povão certamente se emocionará com um currículo tão exemplar, principalmente pela forma corajosa que Dilminha enfrentou a didatura militar e mais recentemente o câncer, que seus médicos afirmam ter desaparecido.
    Pesquisas “globais” têm de ser levadas mesmo muito a sério e não apenas para conduzir um folhetim do início até o fim.
    Verifique, por exemplo, o que ocorre com a campanha anti tabagismo de um lado e de outro a pressão simultânea que se tem feito pela liberalização das drogas. Pesquise e descobrirá quem está por trás de ambas.
    Verifique também o que significa teoria da dissonância cognitiva e sua aplicação prática, principalmente nos principais meios de comunicação.
    O caro jornalista certamente se sentirá muito mais confortável se estiver num lugar mais elevado, mais aconchegante e acolhedor, em que não haja fome, nem sede, nem calor nem frio, distante de qualquer forma de conflito, uma espécie de abrigo anti tudo ruim, diria até um paraíso monótono e sem graça demais,porém bem longe da Somodoma reeditada pela nova elite sobre o povão. Verá o governo mundial muito bem instalado e aí, sim, sentirá saudade dos “mais caros valores morais “relativizados” por nossa sábia sociedade”…
    Torça por isso.
    Boa sorte.

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