A nossa gloriosa insignificância

Publicado por João Mellão Neto Em 23 Dec 2009

memorial-america-latinaO Brasil é um país quase perfeito. Temos um território continental, grande parte dele de terras agricultáveis, estamos isentos de desastres naturais de grande monta (terremotos, furacões, neve), nosso clima, em geral, é ameno e nosso povo, segundo pesquisas, é o mais otimista do mundo. Não há nada, enfim, que justifique a baixa auto-estima dos brasileiros. Talvez seja por isso mesmo. A têmpera do nosso povo nunca foi testada, nem por guerras, nem por privações. Não tivemos ainda a oportunidade de provar ao mundo a nossa tenacidade. Em países de clima frio, não se brinca em serviço. Há que produzir de sol a sol, no verão, sob pena de se passar fome no inverno. Mesmo o nosso sentimento de Pátria – pelo qual outros povos oferecem a vida – é tênue e moderado. Nós nos unimos para torcer pela seleção brasileira e é praticamente só isso. Terminado o jogo, cada um enrola a sua bandeira e adeus ao sentimento de unidade nacional.
Um velho político norte-americano disse certa vez que os aços de melhor têmpera são forjados sob o fogo mais forte. Se é assim, vai ver que o nosso fogo é morno. Ninguém, na verdade, está disposto a oferecer a própria vida no altar da Pátria; ninguém, na verdade, está disposto a abrir mão de nada, quando a Nação corre perigo.
Alexis de Tocqueville, um membro da pequena nobreza da França, viajou à América logo nos primórdios daquela civilização. Dotado de um agudo senso de observação, ele notou nos norte-americanos um sentimento quase paradoxal no que diz respeito a civismo: “Os americanos são o povo mais egoísta e individualista do mundo. Cada um cuida de si e a solidariedade praticamente inexiste. Mas bastou que a comunidade corresse algum perigo, que todos se uniram, e cada um não se furta a cumprir a sua parte, por mais sacrifício que isso implique.” Individualismo mais comunitarismo: esse inédito arranjo social norte-americano, segundo Tocqueville, era responsável pela grandeza e pela força da América. “Nós, latinos, nos derramamos em palavras bem-intencionadas, mas, na verdade, não estamos dispostos a ceder em nada”, concluiu.
As diferenças ente os povos latinos e os de origem anglo-saxônica não param por aí. Um amigo meu, levado pela profissão a freqüentar com assiduidade os Estados Unidos, observa que não há nada mais diferente, culturalmente, que um norte-americano e um brasileiro. E quem não atentar para isso está fadado a se dar mal na América. O sistema de crenças e convicções dos americanos é substancialmente diferente do nosso, bem como os seus valores. O primeiro contraste já se mostra na atitude de ambos perante a lei. Os americanos acreditam que suas leis têm uma origem transcendental, emanadas que são dos founding fathers – um congresso de iluminados que redigiu a Constituição. No Brasil a lei… Ora, a lei… Ninguém sabe quem escreveu, para que e com qual objetivo.
Na América é comum grandes astros do show business, quando cometem infrações, serem condenados a penas severas, mais do que seriam caso se tratasse de cidadãos comuns. É o contrário do Brasil, onde os ricos e famosos gozam de um sem-número de privilégios legais. Quem explica esse paradoxo é um juiz norte-americano, em entrevista a uma revista: “As celebridades devem pagar mais caro justamente porque são celebridades. Elas servem de exemplo para os cidadãos comuns. Devem ser punidas com rigor para demonstrar que aqui, na Pátria da Liberdade, a lei paira acima de todos.”
Outra característica marcante dos americanos é a de que o povo, lá, não mente. Ou, pelo menos, mente muitos menos do que nós, os latinos. Muito brasileiro se dá mal na América porque teima em transplantar os seus hábitos e costumes para lá.
Para se concluir um negócio nos Estados Unidos quase não são necessários papéis e documentos. Isso induz muitos espertalhões brasileiros a tentarem forjar títulos e falsificar atestados. Não raro acabam na cadeia. A cultura vigente nos Estados Unidos é a da “presunção da boa-fé”, ou seja, todo mundo é inocente até que se prove a culpa. Mas, uma vez provada esta, a lei não tem a menor clemência.
Enfim, estas são as diferenças básicas entre brasileiros e americanos. São eles os certos ou, então, seremos nós?
No Brasil, herança ibérica, talvez, sempre imperou a cultura do privilégio em detrimento da do mérito. Ninguém respeita sequer as filas de cinema. E autoridade é alguém fardado destinado a ser subornado.
A cultura americana tem, mais ou menos, a idade da brasileira. Nesses poucos séculos, eles lograram fazer da América uma nação. Nós outros a única coisa que soubemos fazer bem foi amaldiçoar os gringos, atribuindo-lhes todas as agruras por que passamos. Eles são os grandes culpados pela nossa pobreza, pela nossa estagnação e pela nossa falta de progresso. Esse fenômeno, aliás, não é típico do Brasil. A América Latina inteira, com raras exceções, tem como esporte favorito falar mal dos americanos. Enquanto desopilamos nosso fígado crucificando a América, o fato é que eles, os gringos, estão cada vez mais ricos e nós, cada vez mais pobres.
Que ninguém se iluda quanto à suposta importância que nós temos para eles. Dia destes, foi perguntado ao candidato democrata a presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, numa entrevista, o que ele achava do Brasil. Silêncio sepulcral. Ele não achava nada. Talvez nem soubesse a localização do País. Foi salvo por um providencial assessor que tratou logo de mudar de assunto. Nada mais normal. Se nós, brasileiros, não sabemos a localização da Zâmbia, por que Obama saberia algo do Brasil? A América Latina só é importante nos discursos de Hugo Chávez.

Artigo publicado no Jornal o Estado de São Paulo em 8 de junho de 2008.

3 Comentários em “A nossa gloriosa insignificância”

  1. Francisco says:

    Sr.Mello, bom dia. Eu trabalhava como músico (meu blog, inclusive, conta experiências ou pontos de vista baseados na minha experiência como tal). Uma vez fui gravar no estúdio “Nas Nuvens”, renomadíssimo, onde vários clássicos da MPB foram gravados. Um dia, lá dentro, olho para o chão e vejo a fita master do album “Traduzir-se”, do Fagner… No chão!!!Para qualquer um chutar. O que quero dizer: é um disco? Sim, só um disco, porém nesse pequeno episódio vemos como as grandes e importantes coisas são tratadas aqui no Brasil, também, não só o tal disco. Ninguém conhece ou procura conhecer nada, não se informa ou cuida de nada, muita gente nem sabe que houve um golpe militar em 64, e não me refiro só a lugares carentes ou miseráveis. História, quem se importa? Preservação e propagação, quem se importa? Enfim, pode parecer duro isso, mas me preocupo com o futuro do país por várias coisas, e essa é uma delas, até que aqui realmente vire uma “terra de ninguém”.
    Ótimo post como sempre, abs e boa sorte pra ti.

  2. Francisco says:

    Atrevo-me até a colocar um link de um post que escrevi um tempo atrás, se me permite, muito semelhante ao que está escrito aí.

    http://franciscoschieber.blogspot.com/2009/08/nem-tudo-e-culpa-de-portugal.html

    Sei que o Sr. é ocupado, porém se ler será um prazer. De qualquer forma, o link está acima. Novamente, abs e boa sorte.

  3. léo guedes says:

    Seria a baixa estima um sintoma de problemas de consciência? O catolicismo que nos embala coloca o homem diante do ser ou não ser perfeito. E a atração pelo que consideramos realidade nos leva para o exercício do cinismo. Simplesmente fingimos. Mascaramos com diferentes personalidades a perfeição que não temos. Entre o Reino de Deus e Sua Justiça, preferimos o reino de César e isso nos custa a tal baixa estima, pois, por debaixo da máscara, resta-nos tão somente o que somos.

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