Há poucas semanas, eu dava conta, aqui, da lassidão moral, do sentimento generalizado de indulgência que, de uns três anos para cá, vêm tomando conta da opinião pública brasileira. Que não venham alegar que a moralidade está fora de moda em todo o mundo, ou que as pessoas, na verdade, nunca se incomodaram para valer com a existência ou não de um mínimo de ética no trato da coisa pública. Há menos de 16 anos, quando fui ministro do então presidente Fernando Collor, vivenciei de perto um desses surtos de demanda ética que, de quando em quando, acometem toda a Nação, forçando a ocorrência de mudanças profundas. Por mais que se argumentasse, com pragmatismo, que os males do governo já haviam sido todos corrigidos, ou que se procurasse demonstrar que um trauma político de tais proporções jamais seria benéfico para a sociedade, nada disso adiantava. Ninguém estava disposto a perdoar Collor. Com o tempo, fui-me conformando com a queda iminente do presidente, o que eu considerava lastimável, uma vez que todas as medidas já haviam sido tomadas para que aquele governo, dali em diante, fosse um dos melhores de toda a História republicana.
Napoleão, num de seus momentos de reflexão, reconhecera, com toda a crueza, que havia vertido muito sangue, e talvez ainda vertesse mais, “não com ódio ou revanchismo, mas, tão-somente, porque a sangria faz parte da medicina política”. Conformei-me, então, com o óbvio: era crucial, naquele momento, para a auto-estima nacional, que a sacralidade do mandato presidencial fosse violada. Aquele povo que, por tantas décadas, fora espezinhado, despojado e vilipendiado em seus mais elementares direitos necessitava agora – como prova maior de sua cidadania – consumar um processo de impeachment.
Hoje em dia, mais e mais estou convicto de que, o que quer que Collor tenha feito, o problema, em 1992, não era ele, mas sim as circunstâncias. O Brasil ansiava por confrontar supremos mandatários. E o Fernando das Alagoas era a bola da vez.
Embora polêmica, essa tese não é de difícil comprovação. Basta comparar o que acontecia naqueles dias com o que ocorre hoje. Desde os escândalos do mensalão até agora, todas as feridas, embora continuem abertas, curiosamente jamais infeccionaram. Nesse ínterim, o próprio presidente Lula ainda foi premiado com a reeleição. Por muito menos o presidente Collor foi impiedosamente apeado do poder. O tempora, o mores…
O que mudou? O que ocorreu para que, em tão pouco tempo, os brios cívicos dos brasileiros se tivessem abrandado tanto? Há duas explicações, que se complementam.
A primeira é a de que Lula descobriu, meio sem querer, que custa muito barato comprar a consciência das camadas mais destituídas da população – R$ 70 por mês é o que o governo transfere para as cerca de 11 milhões de unidades familiares mais pobres do País. É discutível a eficácia de programas de transferência de renda como o Bolsa-Família na promoção econômica dos seus beneficiários. Como as contrapartidas das famílias-alvo não são fiscalizadas, tudo não passa de mero assistencialismo. Trata-se de uma “mãozinha” que o governo dá para atenuar as carências dos mais pobres. Não é tanto dinheiro assim, uma vez que tais dispêndios cabem folgadamente no Orçamento da Nação. O problema maior é que, se esmola curasse pobreza, há muito não haveria mais miseráveis no mundo. Lincoln, há um século e meio, já advertia sobre quão enganoso é acreditar que se ajudam efetivamente os cidadãos “fazendo por eles o que eles podem e devem fazer por si próprios”. As conseqüências diretas dessa política são a eterna dependência, o conformismo e o total aniquilamento do que ainda restava da ética do trabalho.
O problema é que esses R$ 70, que parecem muito pouco para uma família urbana do Sul ou do Sudeste, fazem toda a diferença quando o beneficiário habita as regiões mais pobres do Brasil. Volta e meia nos chegam notícias sobre a “falta de mão-de-obra” em certas comunidades pobres do País. Não se trata de falta de trabalhadores. A falta é de gente que queira trabalhar. Para muitos, os R$ 70 que o governo dá são mais do que suficientes para que os indivíduos deixem de procurar alguma outra forma de auferir renda. Essas pessoas formam uma clientela política extremamente fiel ao governo. Como são muitas, elas também ajudam a diluir e amortecer, na consciência geral, o impacto de eventuais transgressões morais por parte dos governantes. Tudo isso é muito conveniente ao status quo, mas a pergunta que não quer calar continua a ser a seguinte: existe, na História universal, o registro de um único povo que tenha prosperado por meio de esmolas? Não, não existe. E essa, sem dúvida, será a mais maldita das heranças legadas pela gestão Lula.
A outra explicação para a absoluta complacência moral em que vivemos advém do fato de que, em raras ocasiões, a economia internacional passou por uma fase tão próspera. O Brasil foi muito beneficiado com isso. Aos olhos de muitos se atribui tal afluência às virtudes do governo atual. Esse é outro poderoso fator que faz muitos relevarem ou mitigarem as recorrentes notícias de escândalos.
Esses fatores explicam, mas nem de longe justificam o torpor moral atual dos brasileiros. A história é uma só: todos os povos que, por um motivo ou outro, abriram mão de seus valores e convicções ou descuidaram de seus brios cívicos acabaram pagando um alto preço por isso. Quem no mundo haverá de respeitar um povo que, em troca de migalhas, deixou de se respeitar a si próprio? O tempo, como sempre, haverá de dar a resposta. Ai de ti, Brasil!
Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” - Sexta-Feira, 11 de Abril de 2008.




Ilmo. Professor e mestre Dr. João Mellão,
Aula brilhante mais uma vez.Quando digo que o senhor é dos poucos que ainda fala sem qualquer medo do politicamente correto, cada vez teus artigos isto comprovam. Esta análise do governo Collor e sua comparação ao torpor da cidadania que passa o povo brasileiro é esplêndida. Em minhas discussões políticas, as quais sempre termino necessariamente por ser minoria eis que auto-denominar-se “liberal” é pecado mortal na sociedade “neo-moderna”, procuro realçar o absurdo que tem sido a gestão de Lula, detentora do maior escãndalo de corrupção documentada de nossa história republicana.Até este ponto existe concordância.Quando digo que por muito, mas muito menos Fernando Collor foi rtirado do poder, aí vem o famoso bordão:
-” Não vai compara com Collor?”
De nada adianta mostrar que o corpo ministerial de Collor no correr de seu mandato foi tornando-se um corpo de primeira categoria, que o processo em si, materialmente falando, versava sobre fato muito menores se comparados à atual gestão, bem como o fato de embora tenha se submetido ao processo político e julgamento político e acatado à decisão e cumprido sua pena, tudo dentro de um absoluto processo democrático, sem qualquer resistência, Collor ainda é sinal de palavrão.Não acredito que um regime democrático possa coadunar com isto, independente de se gostar ou não da figura do ex-presidente.
Agora, verificar “camaradas do Grande Partido, com direitos políticos perdidos transitarem livremente nas decisões governamentais através do Partidão, isto é uma vergonha.
O povo brasileiro ficou num estado de agnosticismo político.
E o senhor descreveu com a didática fantástica os programas assistencialista.Interessante notar que Mitchel e Simmons editaram o livro pelo Instituto Liberal onde provam, por A + B, que todos os programas assistencialistas às camadas mais pobres nos EUA não só foram um fiasco como criaram mazelas como a do “medo ao trabalho”.
Infelizmente a cidadania brasileira vive um perído de catatonia.Mas uma catatonia “induzida” por medicamentos governamentais e por um sentimento de que tudo vai mais ou menos bem.As sociedades começam a ruir quando se pensa que se está mais ou menos bem.
Mais um brilhante artigo, Professor João Mellão
Parabéns!
Fraternal abraço liberal do sempre discípulo,
Rogério Gandra da Silva Martins
PORQUE O PRESIDENTE COLLOR NAO SE DEFENDEU? QUANTO CUSTA AO BRASIL A TRAJETORIA DESSES $ 70,00 DO GOVERNO ATE A ENTREGA FINAL?
Sr. Mello, eu era muito pequeno na época do confisco das poupanças, só sei que meus pais sofreram muito na época, mas depois, adulto, não tive ninguém esclarecido o suficiente para me explicar a razão de tal atitude, do confisco, de uma maneira embasada e sem superficialismos. Mas, em essência, Collor foi, sim, bode expiatório. Sobre Lula, nenhuma calhordice em seus mandatos é segredo para ninguém, concordem de acordo com a própria convenência ou não, mas quanto ao impeachment de Collor, definitivamente não foi uma “atitude de brasileiro”, povo sossegado, e sei lá porque aconteceu com ele e tenho certeza que o povo, já tendo sentido onde mais dói, o bolso, foi incitado, mais ou menos como acontecia no pátio da escola, antes de acontecer a briga. Não sei (ou sei) por que não aconteceu com Lula.
Abs!
Deputado João Mellão, sou aqui da terrinha amada São Manuel do Paraíso, ou simplesmente São Manuel.
Sou radialista há 25 anos e milito no jornalismo e entretenimento, tudo ao mesmo tempo, afinal, interior é fogo e na nossa profissão, SOBREVIVER é o que conta!
Escrevo-lhe para comunicar que em nosso SITE(site independente de meu estúdio) tenho colocado matérias a respeito de suas verbas à nossa querida cidade!
Acabo de publicar mais uma e seria um prazer contar com sua visita ao nosso endereço eletrônico.
Sei do apreço que tem por nossa São Manuel e por isso deixarei os endereços do SITE e de meu BLOG onde coloco a política local a limpo, sem máscaras!
Gostaria de um retorno de vossa senhoria ou de algum representante, o que nos encheria de orgulho e coragem para continuarmos.
http://www.eunosite.com.br (é um site com notícias de São Manuel exclusivamente!)
sandrodalio.blogspot.com (é o BLOG que corneta tudo…)
Grande abraço deste fã e agradecido sãomanuelense pelo apoio e carinho que demonstra para com nossa terra!
Fique na PAZ!
Sandro Dálio.