Corrupção é só conversa de burguês?

Publicado por João Mellão Neto Em 15 Dec 2009

Corrupção É mais útil ter uma visão histórica de que uma visão histérica dos problemas. E o problema que mais tem afligido a opinião pública é a onda de corrupção que tomou conta da nossa política.

Corrupção, acima de certo nível, é característica das nações subdesenvolvidas. Especialmente daquelas onde as instituições são fracas ou simplesmente inexistem. A corrupção não apenas é uma particularidade dos países atrasados, mas também uma das principais causas – se não a única – desse atraso.

A vocação natural das nações – se nada as impede disso – é crescer e amadurecer. Se, eventualmente, isso não ocorre, deve existir uma grave anomalia que serve como obstáculo. Urge, então, identificá-la e, se possível, extirpá-la, sem complacência, até as suas mais profundas raízes.

Outro aspecto que deve ficar claro é que a corrupção não é tão-somente uma doença moral. Qual câncer, cresce e se espalha até comprometer todo o organismo. Não dá para ignorá-la ou conviver com ela sem pôr em risco o corpo inteiro onde se manifesta. Uma sociedade que pretenda manter-se hígida e saudável precisa deixar de lado o comodismo e tratar de combatê-la, com destemor, desde os primeiros indícios de sua presença.

A corrupção, por exemplo, em médio prazo, implode todos os principais alicerces da economia nacional. Não é difícil entender por quê. Nenhum estrangeiro se dispõe a arriscar o seu capital num país onde o mercado é distorcido por conta de licitações viciadas, privilégios injustificáveis que o governo porventura conceda a determinados setores ou empresas – que resultem na inviabilização da livre concorrência; ou onde a Justiça seja morosa, venal e até inoperante – incapaz de garantir e reparar os legítimos direitos daqueles que forem lesados ou tiverem os contratos que livremente estabeleceram descumpridos, aviltados ou vilipendiados. Também ainda está para nascer um alienígena que, tendo legalmente investido o seu dinheiro numa determinada nação, assista passivamente à invasão, depredação ou confisco dos bens ou patrimônios que porventura tenha adquirido, melhorado ou construído naquele local. (Só mesmo um governante, digamos, exótico, como o nosso atual, entregaria pacificamente parcelas valiosas do patrimônio nacional à Bolívia, como ele fez, de bom grado.)

Se os estrangeiros, por acaso, desistirem de investir no Brasil, nós não disporemos de recursos próprios para suprir essa lacuna e a conseqüência, absolutamente previsível, seria a descapitalização e posterior estagnação e inviabilização de nossa economia. (Aplicar tais recursos em países mais civilizados seria uma decisão muito mais sensata e tranqüilizadora, certo?)

O carcinoma da corrupção não provoca danos só na economia. A sociedade, como um todo, também sofre severamente com sua proliferação. Não há registro histórico de alguma nação que tenha progredido ou prosperado graças à gatunagem generalizada. Ao contrário, a prática disseminada da depravação e devassidão, mormente com o patrimônio público, torna-se rapidamente de conhecimento geral, o que induz incontáveis cidadãos, em especial os dotados de caráter mais frágil, a deixar de aplicar seu esforço, engenho e talento em atividades úteis à comunidade para enveredar pelos obscuros caminhos da ilegalidade. Nos jovens, então, o efeito é avassalador. Como convencer mentes ainda em estágio de formação a persistirem sempre na honestidade e na correção, se elas tomam conhecimento, cotidianamente, pela mídia, de que aqueles que logram vencer na vida são, em grande número, os que optaram por mandar às favas os seus escassos escrúpulos?

O governo presente comete um grave equívoco ao relegar a questão da corrupção a segundo plano. A petecracia nos dá a entender, todos os dias, de que, no final das contas, os fins realmente justificam os meios. Meus filhos, graças a Deus, já são crescidos. Não fossem, eu jamais delegaria a formação deles a uma prestativa governanta do PT. (Nos meus tempos de jovem, era comum a contratação de preceptoras para auxiliar na educação dos rebentos.) Eles, no mínimo, se tornariam adultos inescrupulosos, para quem conceitos como dignidade e honradez não fariam o menor sentido. Deus me livre de ter filhos à imagem e semelhança de um Zé Dirceu ou de uma Dilma Rousseff!

O PT inventou uma excelente forma de parar de fumar. É fumar escondido. E se, por acaso, alguém for flagrado em tabagismo explícito, a saída é negar até o fim, dizer que o charuto era de outra pessoa ou, por fim, alegar que não sabia de nada.

Não estranho nada o fato de eles serem assim. Fui testemunha ocular do processo de criação do Partido dos Trabalhadores. De todos os incontáveis e irados discursos que ouvi à época (petista de coração já nasce discursando, invariavelmente, em tom indignado), não foi citada uma única vez a palavra corrupção. Um colega meu de faculdade, versado em temas marxistas, decifrou-me o enigma. Aquela gente esquisita não considerava a corrupção um tema relevante. Para eles, se algum roubo importava, era exclusivamente o praticado pelos patrões contra seus empregados, aos quais, supostamente, pagavam salários muito inferiores ao valor do que realmente produziam, enriquecendo com a apropriação do excedente. Combater essa flagrante exploração, essa, sim, era a grande causa pela qual estavam dispostos a arriscar a vida, se preciso fosse.

Os anos passaram, durante a década de 90 eles, até mesmo por puro oportunismo eleitoral, adotaram o discurso moralista, mas, ao chegarem ao poder, trataram de abandoná-lo depressa. Voltaram a se focar na grande causa, pela qual tudo é justificável, até mesmo roubar.

É gente assim que agora, trajando pele de cordeiro, vem suplicar o meu voto. Mas, como sabiamente afirma aquela velhinha do comercial de TV, “nem a pau, Juvenal!”

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3 Comentários em “Corrupção é só conversa de burguês?”

  1. léo guedes says:

    Pois é, João. O homem está sempre diante de uma questão indesejável. Decidir. Por que indesejável? Pois no recôndito de seu ser reconhece que está imerso na ignorância. E decidir significa risco. Como afastar o risco de uma decisão? “Criando” a certeza. O que ocorre na cabeça de um empresário que participa da competição no mercado? Sabe-se que mercado é risco. Ninguém sabe se um produto ou serviço vai emplacar, vai dar resultado. Mas e se tivermos um dado viciado? Uma concorrência onde podemos burlar, isto é, fazer com que o dado fique viciado? Pois vejo assim a corrupção. Empresas que deveriam disputar em condições de igualdade com as outras numa licitação, mas que corrompem o dado, isto é, jogam com a certeza, pois afastam qualquer risco de sua decisão. Simples, não é? O mesmo se dá na pessoa física. Sabemos que é necessário trabalho e esforço para se conseguir algo e atuamos sempre na área de risco – sistema aberto -. Para garantirmos que a decisão que tomarmos estará livre de riscos, então viciamos o dado, ou o baralho. Afinal, não somos o povo do levar vantagem em tudo? Certo? Não estou generalizando que o ser humano age desta forma, mas, na medida que ele não tenha rígidos princípios morais e éticos, ele está sujeito à tentação, que não é pouca, diga-se de passagem.

  2. silvia says:

    Ah João, que bom ler alguém que não ignora os males da corrupção, isto porque tenho me sentido tão chocada com a aceitação de amigos aplaudindo Lula e sua gang pelos seua atos benéficos ao país (que não nego de forma alguma) mas que não justifica que eu os considere “bonna gente” por isso, sendo que, por outra parte, estão minando o país através da corrupção.

  3. silvia says:

    E a voce também obrigada Léo Guedes.

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