Não é fácil ser Obama

Publicado por João Mellão Neto Em 14 Dec 2009

Barack Obama Meio século atrás, em certa cidadezinha do sertão de Minas, surgiu um sujeito bem apessoado, de barbas e cabelos longos, que afirmava ser ninguém menos do que Jesus Cristo. Tanto e com tal veemência ele insistiu que o povo da cidade começou a se amoldar à circunstância de ter, entre si, o Filho de Deus. Logo surgiram um Pôncio Pilatos, uma Madalena arrependida, 12 apóstolos, centuriões romanos e todos os personagens necessários para levar à frente a Paixão de Cristo. O sujeito foi preso e julgado. Foi devidamente condenado a morrer na cruz. Iniciou-se, então, a via crúcis. Tudo corria de modo impecável até que o tal do messias sertanejo, no momento de ser pregado na cruz, cochichou no ouvido de um dos soldados que iria até a moita mais próxima se aliviar. Foi, sumiu e nunca mais deu as caras por ali. Escafedeu-se. Tratou de dar no pé e, assim, salvar a própria pele.

O povo local nunca mais se recuperou. Todos, traumatizados, ainda aguardam o retorno do messias. E assim ficarão até o fim dos tempos.

Em meados de 1961, o jornalista David Nasser valeu-se dessa parábola para traduzir a estupefação dos brasileiros diante da renúncia do presidente Jânio Quadros.

Voltando à atualidade, ninguém desejaria, neste momento, estar na pele de Barack Obama. Como outros 2 bilhões de espectadores – um terço da população mundial -, todos assistimos, pela TV, à sua posse. Não havia, naqueles tensos instantes, quem não estivesse, em todos os cantos da Terra, depositando em seus ombros a obrigação de nos livrar dos problemas e, simplesmente, fazer-nos felizes.

Não bastará, assim, a Obama, ser um bom presidente. O que se espera dele, no mínimo, é que seja excepcional. Ou ele se demonstra, já no início, um dos maiores estadistas da história dos EUA ou, então, cairá na vala comum ocupada por tantos outros colegas seus.

Que Obama chama a atenção pela sua condição racial, isso é fato. Ele prometeu mudanças, rupturas. E, perante o imaginário coletivo, a sua negritude é o mais eloquente símbolo dessa proposta.

Há, no entanto, uma peculiaridade que, como negro norte-americano, distingue o presidente Obama: ele não descende de escravos e, portanto, não tem a cobrança e o ressentimento em sua agenda política.

Sua vitória nas urnas não foi tão arrasadora como se quer crer e tampouco lhe garante uma maioria confortável e incondicional no Congresso.

Seu pacote de estímulo econômico é de mais de US$ 800 bilhões. É muito dinheiro. Representa 5% do produto interno bruto (PIB) dos EUA. O governo do país não dispõe de tal quantia e, assim, ela virá de um aumento considerável do endividamento público.

Trata-se, na prática, de um cheque sem fundos. O debate sobre como e quem pagará essa dívida é o que divide, hoje em dia, os economistas.

Essa discussão, para nós, brasileiros, parece absurda. O que está em jogo é o tamanho do Estado e o seu papel na economia. Entre nós, o Estado é gigantesco e vem intervindo fortemente na economia, sob os mais diversos pretextos, desde, pelo menos, os anos 30 do século passado.

Nos EUA há, atualmente, duas grandes vertentes no pensamento econômico.

De um lado estão os intervencionistas, ou neokeynesianos. Para eles, o papel do Estado é fundamental para promover uma retomada dos investimentos, em geral. Com isso os empregos seriam mantidos e a recessão terminaria. O principal argumento deles é o de que foi graças a uma política econômica semelhante que o presidente Franklin Delano Roosevelt logrou acabar com a Grande Depressão que assolou os EUA a partir de 1929. Para eles, todo e qualquer investimento público – mesmo que não haja dinheiro disponível para cobri-lo – é justificável. O aumento da arrecadação de impostos resultante de tais estímulos acaba quitando a dívida.

Segundo os discípulos de Keynes, numa recessão, mesmo que o Estado contrate uma equipe de trabalhadores para abrir buracos e outra para tapá-los, o dinheiro gasto para tanto tem um efeito claramente multiplicador na economia. O raciocínio é o seguinte: os trabalhadores, empregados em tais serviços “inúteis”, gastarão os seus salários no comércio, em geral. Os comerciantes, com esse dinheiro em mãos, tratarão de investi-lo na compra de novos estoques de mercadorias, ou mesmo na criação de mais empregos. Ao adquirir novos estoques, o comércio fará as indústrias produzirem mais. Todos os tributos arrecadados na cadeia produtiva em razão do investimento inicial do governo (abrir e tapar buracos) acabam repondo o dinheiro gasto.

De outro lado está a corrente clássica, ou “monetarista”, para a qual o Estado não é solução, e sim problema. Eles afirmam que a Grande Depressão não terminou em função da política de Roosevelt, e sim da entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial. Isso gerou novas demandas, que levantaram o parque industrial inteiro. Em tempos de paz, os únicos papéis válidos do Estado, para atenuar a crise, são: 1) Garantir a liquidez do sistema financeiro e 2) reduzir os impostos para que as pessoas tenham mais dinheiro disponível em mãos para consumir. Esta é a doutrina econômica e política que nós, liberais, sempre pregamos.

O pacote de Obama, curiosamente, contempla providências que são, ora do agrado de uma corrente econômica, ora do de outra. Procura atrair gregos e troianos… Como reza a sabedoria popular, quem põe um pé em cada canoa acaba sempre com os fundilhos na água…

O tempo dirá com quem está a razão. O que se pode afirmar, por enquanto, é que a sua situação, agora, é bem mais desconfortável do que a do Cristo mineiro. Nem pular fora ele pode. Realmente, não é fácil ser Obama…

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3 Comentários em “Não é fácil ser Obama”

  1. Ronald Harari says:

    A corrupção alimenta a fome do povo,abandona os idosos nas filas de saúde e empurra a juventude desempregada no tráfico e consumo de drogas
    Abraço

  2. Rogério Gandra Martins says:

    Caríssimo Professor e mestre João Mellão,
    Mais uma vez brilhante!Aliás, brilhante é pleonasmo para os artigos do senhor.A cultura e a capacidade de explicar o contexto histórico é fantástica.
    Assino em baixo o que o senhor escreveu.
    Infelizmente, a sociedade brasileira, e não apenas as camadas que infelizmente não tem acesso`aos meios educacionais, mas também as camadas “com discrimento intelectual” parecem desconhecer a história de nosso País.
    E, infelizmente, a sociedade brasileira ainda possui a característica de cultuar o “dualismo de Zoroastro” galgando aos céus os menos abstados e aos calabouços do inferno a classe média e as mais bastadas, sem antes analisar todos os fatos que circundam cada posição.
    O caso do Presidente Lula, é brilhantemente exposto pelo senhor.Não importa o modo pelo qual chegou lá, não importa quais as estratégias partidárias, quais foram suas vicissitudes ou facilidades.O que importa é que uma pessoa de classe manos abastada chegou ao poder!
    Quantos em situações piores que a do Presidente, não lutam diariamnete para poder crescer na vida em todos os sentidos?
    A ascenção de Lula ao poder, em minha opinião, realça apenas uma grande característica de nossa democracia: está aberta a todos e este é um exemplo claro.
    Mas esta cultura brasileira, ainda constante até em formadores de opinião, especialmente os de tendência de esquerda, de que os menos abastados são heróis e os mais tem “tudo na mão” é uma falta de conhecimento socológico e histórico.
    Quantos membros de cargos públicos de excelência (diplomacia por exemplo) não saíram do nada e as dras penas chegaram onde chegaram?
    Na sociedade privada, quantas empresas começaram do nada, com imigrantes que mal tinham o que comer, e hoje são os “famigerados empresários e monstros liberais”.Pensamentos como estes, de exaltação só pelo fato de origens geram mais prejuízos que benefícios na formação do pensamento político de nossa sociedade.
    O tão saudoso Roberto Campos, uma das maiores cabeças nacionais do século XX, teve que estudar em condições extremamente difíceis.Como não tinha dinheiro à época para custear o estud do inglês, que desconhecia, ia ao cinema, barato à época, e fechava os olhos e ficava apenas ouvindo para aprender a língua e o modo de conversação.
    Em outras sociedades, como a norte-americana, por exemplo, existe “compaixão” pela classe menos abastada mas existe um sentimento que deve-se lutar para se conquistar algo.Obama jamais seria eleito apenas com os méritos de descendência queniana.Seu curriculo o qualificou para concorrer à corrida presidencial e vencer.Uma vez eleito Presidente, as origens evidentemente são lembradas e enaltecidas, mas lá são como andorinhas, não fazem verão.
    Parabéns professor Mellão.O senhor mostrou de forma histórica irrefutável a medidade certa e calibrada pela qual devemos analisar a ascenção de Lula à Presidência!
    Fantástico!
    Parabéns e obrigado por mais uma aula mestre João Mellão.
    Do amigo e eterno discípulo,
    Rogério Gandra Martins

  3. avascocc says:

    A “UNIÃO” DENTRO DO BRASIL É COMO UM RALO, TODO O DINHEIRO DOS IMPOSTOS, QUE SÃO MUITOS E VARIOS, VÃO PARA ESTE RALO E DE LÁ NÃO SABE-SE ONDE.

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