O Brasil, graças às recentes descobertas do pré-sal, está em via de ostentar uma das quatro maiores reservas mundiais de petróleo. Seguramente será a maior fora do Oriente Médio. Parabéns ao nosso país, parabéns ao povo brasileiro e parabéns também à Petrobrás. Infelizmente, as congratulações param por aí. O governo brasileiro, em relação a tudo isso, está exercendo um papel muito feio.
A Petrobrás, desde sua fundação, no início da década de 1950, sempre foi uma empresa ambígua, problemática e nada transparente. A começar pela sua criação. Há quem diga, atualmente, que a intenção do então presidente Getúlio Vargas nunca foi a de criar uma empresa estatal para exercer, na prática, o monopólio das atividades de exploração, refino e transporte do petróleo. O que se temia na ocasião era que a concessão de sua exploração, no Brasil, viesse a cair nas mãos das grandes empresas do ramo, às quais interessaria manter o País como mero consumidor. Verdade ou mentira, pouco importa. O fato é que o assunto chegou às ruas e mobilizou toda a Nação. A campanha popular ganhou o nome de “o petróleo é nosso!”
O apelo foi tão grande que culminou, em 1953, com a entrega de todas as atividades ligadas ao petróleo à recém-criada Petrobrás.
O grande receio, à época, era que, nas mãos de estrangeiros, o Brasil jamais alcançasse a autossuficiência em petróleo. Mal podiam imaginar os mentores da ideia que essa aclamada reserva de mercado é que não nos levaria à autossuficiência de modo algum. Durante muitos anos se acreditou que monopólios estatais eram a grande solução para atividades complexas, como é a extração de petróleo. Como as nações “subdesenvolvidas” – era esse o termo que se usava – não tinham condições de concentrar capital privado em volume suficiente para empreendimentos de tal vulto, era quase que uma certeza que as empresas estrangeiras acabariam por fazê-lo.
Muitos anos se passaram até que, na década de 1970, os pés de barro do gigante estatal foram mostrados explicitamente. Ocorreu então a primeira crise do petróleo. Tudo começou com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Tratava-se de uma iniciativa conjunta em que todos os grandes exportadores concordaram em racionar a produção com o intuito de aumentar o preço de sua mercadoria.
Funcionou. O barril de petróleo valia, à época, menos de US$ 2. Isso inibia a busca por combustíveis alternativos e também o desenvolvimento de motores mais eficientes. Esses fatos se deram em 1973 e o resto do mundo se prostrou de joelhos perante a Opep.
A fragilidade da posição brasileira, então, ficou explicitada. Com monopólio e tudo, mal conseguíamos produzir um quinto do petróleo que consumíamos. Para piorar ainda mais, sobreveio a segunda crise do petróleo, em 1980. O Brasil foi à lona.
Foi aí que começaram a surgir os primeiros contestadores do monopólio. E eles estavam munidos de argumentos impecáveis. Um deles era o ex-ministro do Planejamento Roberto Campos. Dizia ele, em tom de escárnio, que a Petrobrás só era grande da linha do solo para cima.
De fato, a Petrobrás “acima da linha do solo” explorava os mais insólitos ramos de atividade: hotéis, butiques, esportes, etc. Já “abaixo da linha do solo” – que é onde deveriam concentrar-se as suas atividades – ela era uma anã. Produzia apenas o equivalente a 200 mil barris de petróleo diários, para um consumo nacional de mais de 1 milhão.
Apesar de todas as evidências, o monopólio do petróleo só veio a ser abalado na década de 1990, quando o próprio governo encaminhou ao Congresso Nacional proposta de emenda constitucional permitindo a existência de outras empresas na sua exploração.
Funcionou. Tão logo caiu o monopólio, a Petrobrás levantou-se de seu berço esplêndido e atualmente produz 2 milhões de barris diários, dez vezes mais do que na década de 1980. A autossuficiência foi finalmente atingida. Graças, principalmente, à extinção do monopólio.
Isso, por si só, não significa que a Petrobrás se tenha tornado uma empresa “enxuta”. Se o fosse, por que o desespero para impedir, no Senado, a CPI sobre ela?
Pois bem, todo esse esforço corre agora o risco de se perder, com o envio pelo Poder Executivo ao Congresso de sua proposta de “marco regulatório do pré-sal”. Na prática, fica restabelecido o monopólio estatal sobre as atividades petrolíferas – ao menos no que diz respeito às reservas do pré-sal.
Ninguém tem dúvidas quanto à importância estratégica das novas jazidas. O estranho é que se faça um foguetório, quando as questões mais fundamentais ainda não foram respondidas.
O custo do barril extraído, em razão da profundidade, será competitivo?
Se for, o que fazer, uma vez que a própria Petrobrás reconhece que não existe tecnologia para tanto?
Mesmo que essa tecnologia venha a ser desenvolvida, o mais provável é que ela surja no estrangeiro. Pergunta-se: alguma petrolífera de vulto no mundo se disporá a investir no pré-sal, quando as cláusulas para isso são tão desvantajosas?
Por último: por que se está fazendo esse tremendo oba-oba agora, sabendo-se que esse petróleo só jorrará em 2020? Não seria tudo isso apenas uma patriotada pré-eleitoral?
Há uma fábula antiga que diz o seguinte: um sujeito foi ao rei propor que faria um burro falar. Pediu duas décadas de prazo mais uma farta pensão por mês. Um amigo advertiu o cidadão de que aquilo era uma loucura.
“Não é, não! Daqui a 20 anos um de nós, o rei ou eu, já terá morrido.”
“E se isso não acontecer?”
“Fácil. Eu cuido de matar o burro!”




Excelente o artido do burro ! Gosto de seus artigos no Estadão!
Abraço
O artigo está ótimo, como sempre. Como brincadeira, gostaria de
responder à indagação contida no título do artigo: É fácil fazer
um burro falar. Basta dar um microfone a ele. Qualquer analogia
com a política federal é mera coincidência…
Com sempre o seu artigo é excelente, e nos fez conhecer um pouco de história, mas não saberia dizer qual será o melhor caminho para o pré-sal.
Leio sempre( gosto muito) e divulgo entre amigos suas crônicas no Estadão. Vou acessar seu blog sempre que puder. Precisamos de mais políticos éticos, confiáveis e inteligentes como você.
O artigo de “Como fazer o burro falar é excelente”.
Como seu leitor e eleitor parabenizo-o.
Abraços.
Bom dia Dep. Mellão
O senhor acredita que a quantidade e qualidade do oleo do pre-sal como anunciado?
Amauri
Muito bom o comentário do sr, Roberto Sundberg Guimarães… Não sei por que, pensei em uma certa alta autoridade do nosso infeliz (Pelos políticos que tem)pais…
É caro Deputado João Mellão Neto. O oba-oba sobre o pre-sal, somente quem não tem olhos para ver, não encherga que é pura e antecipada campanha para tentar eleger a Dilma. Que Deus não nos dê mais este castigo.
Alguns anos, as grandes escândalos envolviam empreiteiras, era a época das grandes obras (todas subfaturadas).
Hoje as agência de propaganda tomaram esse lugar, é a época da propaganda governamental (todas mentirosas).
O caso pré-sal é um dos exemplos.
Boa tarde Sr.Mellão, Gostaria de uma reflexão do Dep.; será que a nossa burguesia jurassica agüentará Dilma/2010 e Lula/2014. Espero que realmente responda, mesmo que vá doer na alma.
Saudações fraternas,Dr.Mellão, burro talvez, não…mas, o jumento está falando(…) aos quatro cantos do planeta e, quer eleger a sucessora para esconder a sujeira debaixo do tapete, E que tapete!!! e, creio que o petroleo será pós-sal e não pré-sal !!! Abs,
Há alguns anos, tive a oportunidade de assistí-lo na TV Record comentando sobre a reforma agrária. Àquela oportunidade, você tentou fazer com que governantes vissem a luz, mencionando que não adiantava os esforços políticos e financeiros para que houvesse referida reforma, ja que o despreparo e a falta de vontade de trabalhar do agricultor ex-empregado eram tantos, que eles ficariam aguardando o governo enviar um japonês para “tocar a terra”.
Esse comentário soa, hoje, como verdadeira profecia, tal qual a fábula do burro que fala.
A atual gestão federal lullo-petista/peemebebista, oriunda das massas sindicais, em especial o apedeuta, possue forte apelo popular, merce da compra de barrigas miseráveis. Todavia, de governo não entende nada, nem mesmo a diferença de uma fatura e uma duplicata. O outro grupo (Temer, Sarney, etc…), é até certo ponto preparado para o exercício do poder, mas prefere deixar que este seja exercido pelo primeiro, afinal, não sabendo o que fazer, acabam aceitando suas “orientações” nada tendenciosas…
Por favor, continue a utilizar suas atividades profissionais e políticas para mudar os conceitos dos governantes dos grupos citados, como forma de desbastar a bruta ignorância cultural e cidadã que possuem… TFA
Ao Roberto:
A burguesia eu não sei, mas o Lula não vai aguentar a destruição que ele deixou para 2014. Tenho minhas dúvidas se ele vai arriscar tentar se reeleger quando é certo que quem quer que entre em 2014 vai apanhar do desperdício com a Copa, com as olímpiadas e com a eterna e crescente taxa extra á produtividade chama de Bolsa Família. Quem entrar em 2014 sai em frangalhos, e será interessante ver se Lula vai ter coragem de jogar sua popularidade fora para passear pelo mundo por mais quatro anos.
Imagino que a “burguesia jurássica” sejam amigos do Lula como o Sarney, e a burguesia nova seria mesmo o PT cheio da grana e levando 10% de todo o aparelhamento do estado que realizou (fora as suspeitas de “caixa 2″ cm mensalão e outros…). Não que eu seja fã da “oposição” (sejam eles quem forem hoje em dia – esta faltade coragem para criticar governos poplares é uma faceta patética do país), mas de qualqer forma o país será atrapalhado por décadas por esta política de pão e circo que ganhou quem só enxerga o curto prazo.