Nós ainda acreditamos na ética

Publicado por João Mellão Neto Em 02 Sep 2009

modelo_eticaO PT salvou Sarney. E isso, para os crédulos militantes petistas, é um desastre. Para entender o que significa ser petista e por que os militantes do partido acreditam ser moralmente superiores é preciso voltar no tempo. Mais precisamente, ao início da década de 1980, quando o PT foi fundado.

Nas universidades e na intelectualidade em geral, o pensamento marxista prevalecia. Eu, então, era estudante. E naquela época quem não abraçava a causa de Marx era automaticamente tachado de simpatizante da ditadura. O regime militar bem que alimentava essa dicotomia. Para seus defensores, quem não era favorável ao sistema era imediatamente identificado como comunista. E assim fluía o pensamento: marxistas de um lado e militaristas de outro, não havia lugar para liberais e democratas.

E o que é o marxismo ou, como proclamam os seus seguidores, a “causa”?

A “causa” é a mais nobre das aspirações que um humano possa ter. Ela defende o socialismo como etapa necessária para se chegar ao comunismo. E tanto o comunismo como o socialismo requerem de seus seguidores que abandonem todo o apego aos bens materiais.

A lógica é perversa: a propriedade privada é a causa de todos os males que assolam a humanidade. É por causa de sua existência que os homens, em vez de colaborarem entre si, preferem disputar a posse de todo e qualquer bem, usando da violência se preciso for. Uma vez abolida a propriedade privada e investindo pesadamente na educação, a geração seguinte necessariamente será solidária, preocupar-se-á com o bem comum e colocará as aspirações coletivas acima das suas próprias, individuais.

Bem, isso vale para as próximas gerações. E para esta, a atual?

Para esta geração, na qual se dará a grande transformação, impõe-se como condição básica que seus defensores tenham um rígido autocontrole. Todos nós fomos criados e condicionados a alimentar ambições materiais e aspirar a toda e qualquer propriedade. Os adeptos da “causa” têm de ter consciência de que essa transição não é fácil. Luta-se contra aquilo que os burgueses chamam de “natureza humana”. Querem estes que sejam timbradas como naturais ao homem as ambições materiais, quando elas, na verdade, não passam de um condicionamento proveniente da existência da propriedade privada. Mas, uma vez feita a transição – e não se descarta o uso da violência e da luta armada para tanto -, o “homem socialista” que advirá será em tudo superior ao atual. Esta é a grande “causa”: promover a transição da geração atual para a futura, muito melhor.

Os raciocínios que presidem a “causa” são mais sofisticados do que isso e não vale a pena descrevê-los. O importante é ter ciência de que os adeptos da “causa” se sentem agentes da grande mudança. Não é à toa que se sentem, individualmente, moralmente superiores ao restante da humanidade. A “causa” exige muito, mas acaba sendo gratificante. Os seus adeptos não alimentam mais nenhuma dúvida sobre nada. Para todas as manifestações da natureza humana existem explicações plausíveis. E toda mesquinhez, todo egoísmo e toda ganância desaparecerão, uma vez abolida a propriedade privada. Em especial a propriedade privada dos meios de produção.

Pois bem, foi com esse espírito de entrega, renúncia e dedicação à “causa” que nasceu o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Era um partido que se proclamava diferente e superior a todos os outros partidos porque não estava ingressando na política para satisfazer vontades e aspirações individuais, mas sim para implementar uma ideia. O PT seria um partido com um norte definido. E esse objetivo era nada menos do que a “causa”.

Poucos se recordam agora, mas antes de entrar na fase ética e moralista os intelectuais petistas torciam o nariz quando se lhes propunha que desfraldassem a bandeira do combate à corrupção. Esse era um tema secundário, argumentavam eles. Que importância tem expurgar os corruptos da sociedade quando o grande roubo que existe nela é o perpetrado pelos burgueses sobre os proletários? A classe trabalhadora, diziam, era explorada pelos patrões, que estavam cada vez mais ricos, enquanto os pobres ficavam cada vez mais pobres.

Bem, esse era o clima que perdurou por toda a década de 80. Na década seguinte o PT abraçou de corpo e alma a imagem de um partido ético, que, na esfera pública, não rouba nem deixa roubar. Foi com essa silhueta que o partido cresceu e finalmente alcançou o poder maior, em 2002, com a eleição de Lula para presidente da República.

Tudo isso está sendo relembrado para demonstrar que a ética e a moralidade na área pública são bandeiras estranhas à “causa”. Não estão impressas em seu DNA. Isso ficou claro em 2005, quando ocorreu o escândalo do “mensalão”. Os petistas, ficou demonstrado, não se incomodam em recorrer a expedientes antiéticos, desde que o façam para facilitar a implementação da “causa”.

Nos dias que correm, já há intelectuais petistas que voltam a demonstrar o seu menosprezo original pelas bandeiras éticas. Alegam que ficar clamando pelo combate à corrupção é uma manifestação de moralismo “pequeno-burguês” e de “udenismo tardio”.

É, no mínimo, curioso ouvir tais argumentos da boca de empertigados intelectuais petistas que, antes da chegada ao poder, eram os paladinos da caça aos corruptos e da introdução da ética na esfera pública.

Nós, os execráveis “pequenos burgueses”, ao menos estamos onde sempre estivemos. Entendemos que aqueles que se vendem não merecem ser comprados. E que os que entendem não ser possível ser políticos honestos que tratem de ser honestos sem ser políticos.

6 Comentários em “Nós ainda acreditamos na ética”

  1. jose vicente margara says:

    parabens pelo seu blog. precisamos de politicos, e jornalistas como voce para nos informar com isenção o que esta ocorrendo na realidade e nos bastidores dessa nossa desastrada politica brasileira.

  2. Eduardo says:

    1.Como é mesmo o nome daquele livrinho que contava uma historinha numa fazenda? Esqueci o nome daquela “causa”!

    2.Seria fascinante se algum jornalista, sem maldade mesmo, fizesse uma pesquisa sobre o montante de bens (bens móveis, imóveis, etc.) de Luiz Inácio Lula da Silva. Seria apaixonante acompanhar as diatribes desse senhor alçado à Presidência da República com um diário colado ao lado da riqueza material dele.

    3.Tem direito? Foi honesto? Isso são perguntas pertinentes Receita Federal.

    4.Mas eu gosto de ouvir meu patrão(para respeita-lo) aqui na empresa (que tem uma montanha de dinheiro) quando ele dá ordens! Ajuda muito mesmo a gente fazer a casadinha entre a ética e a grana! Quando casam, como aqui, vale a pena!

    5. No PT e no Lula não casam.

  3. jorge oneto says:

    Caro e querido amigo joão,
    voce sempre se supera e nos agrada muito, fiz varias pessoas lerem este seu art q saiu no estadão,tirando xerox e repassando para varios incautos e nossos amigos que nos ajudaram nas ultimas eleições que v. se elegeu.para voce, 10 é o minimo.CONTE CONOSCO aqui na roça.

  4. Paulo Garcia Martins says:

    Nobre Deputado. é por isso que não acredito em ninguém do PT. O simples fato de estar no partido, sabendo de todas essas famcatruas e con tinuar no partido, já me convense que não tem bons propósitos. Não merece confiança. è lementável que uma pequeníssima minoria tenha acesso aos seus artigos.
    Você merece nosso voto.

  5. Ontem estive com o meu pai na Assembléia Legislativa de São Paulo (ALESP), conversando com o Ex-Secretário, Ex-Deputado Federal, Ex-Ministro, atual Deputado Estadual, João Mellão Neto.
    Nesse bate papo, conversa informal com o referido Deputado, conversamos sobre vários assuntos como: Populismo, Dr. Jânio da Silva Quadros, Fernando Henrique Cardoso, atual momento da política, óbvio a trajetória política e acadêmica do mesmo.
    Pois como sabemos, o Deputado João Mellão Neto, não só tem uma rica experiência e vivência na Política Brasileira, como também é um grande Jornalista, dado a seu brilhante trabalho no jornal “O Estado de SP”, que realiza desde 1987 com os seus belos artigos, que tive o prazer de ler alguns, além de escrever também no jornal “Flórida Review” – o maior jornal em língua portugeusa dos E.U.A., sem falar o brilhante Escritor, sobre diversos temas na polítca não só brasileira, como mundial.
    Quero parabenizar o Deputado, pelo empenho e dedicação, que o mesmo tem com os seus eleitores, admiradores, compromisso que vossa senhoria tem para com o povo paulista.
    Nesse momento tão difícil da política brasileira, são pessoas como você, que faz que eu não perca o gosto e não abandone a política, pois ela está no sangue, vivo com ela diariamente desde os meus 14 anos, quando começei a entender e estudar sobre o mesmo.
    Como estudante de Ciências Sociais (PUC-CAMPINAS), do 6º Semestre procuro o básico do estudo desse referido curso que são os seguintes:
    Sociologia – Estudar a Sociedade em que vivemos (Aliás essa referida matéria, do qual sairei formado “reconhecido” por lei que é a Profissão de Sociólogo, Lei nº 6.888, de 10 de dezembro de 1980).
    “A Sociologia é uma ciência que estuda as sociedades humanas e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos e instituições. Enquanto o indivíduo isolado é estudado pela Psicologia, a Sociologia estuda os fenômenos que ocorrem quando vários indivíduos se encontram em grupos de tamanhos diversos, e interagem no interior desses grupos”.
    Antropologia – A Antropologia é o estudo do homem como ser biológico, social e cultural. Sendo cada uma destas dimensões por si só muito ampla, o conhecimento antropológico geralmente é organizado em áreas que indicam uma escolha prévia de certos aspectos a serem privilegiados como a “Antropologia Física ou Biológica” (aspectos genéticos e biológicos do homem), “Antropologia Social” (organização social e política, parentesco, instituições sociais), “Antropologia Cultural” (sistemas simbólicos, religião, comportamento) e “Arqueologia” (condições de existência dos grupos humanos desaparecidos). Além disso podemos utilizar termos como Antropologia, Etnologia e Etnografia para distinguir diferentes níveis de análise ou tradições acadêmicas.
    Ciência Política – Que estuda o Estado e suas Instituições.
    Ciência política é o estudo da política — dos sistemas políticos, das organizações e dos processos políticos. Envolve o estudo da estrutura (e das mudanças de estrutura) e dos processos de governo — ou qualquer sistema equivalente de organização humana que tente assegurar segurança, justiça e direitos civis.
    Atenciosamente, Mateus Rosa Tognella.

  6. hello,

    thanks for the great quality of your blog, every time i come here, i’m amazed.

    black hattitude.

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