O exemplo que Lula nos dá

Publicado por João Mellão Neto Em 28 Aug 2009

Lula caricaturaTalvez nunca antes na História um presidente tenha reunido tanto apoio, político e popular, quanto Lula. Há levantamentos que indicam ter ele alcançado a marca dos 80% de aprovação. Deve-se ter em mente que a unanimidade é inatingível. Nem mesmo Jesus Cristo a alcança, haja vista que há um determinado porcentual da população que não acredita nele.

Mas, como bem observou meu filho Ricardo, esse porcentual estratosférico lhe garante o título de grande político, não o de estadista. Estadista é alguém que deixa um legado – de feitos, comportamentos ou palavras – para as gerações seguintes. Vendo as coisas por esse prisma, qual é o legado de Lula?

Ele deixará para a posteridade alguma grande realização? Ele servirá de exemplo para alguma coisa? Existem pensamentos ou definições de sua lavra que ficarão na História?

A resposta é negativa para as três indagações. Lula não é mesmo um estadista.

Ao contrário. Por tudo o que fala e faz, ele deixa muito a desejar nesse quesito.

Os norte-americanos – que criaram a figura do presidente da República – revestem o titular do posto de um significado que transcende em muito as suas atribuições. O presidente é um rei temporário que se fez pelos seus próprios méritos. E, assim sendo, é uma referência para o comportamento de todos os seus concidadãos.

George Washington, o primeiro presidente, tinha essa noção muito clara. Como a América abrira mão de ungir um rei, era natural que depositasse na figura do presidente todas as expectativas que, em outras circunstâncias, seriam próprias de um monarca. Consciente de seu papel, ele governou os Estados Unidos por oito anos. E fez história.

Muitos dos seus procedimentos até hoje são seguidos.

Um deles é o culto à pessoa da primeira-dama. A própria expressão – primeira-dama – provém de sua época.

Outro é o exercício da presidência por apenas dois mandatos. A Constituição norte-americana, originalmente, permitia ao presidente se reeleger quantas vezes quisesse. George Washington, a seu tempo, recebeu numerosos apelos para se candidatar a novos mandatos. Mas entendeu que a alternância no posto era o principal sinal que distinguia um presidente de um rei e recusou-se a prosseguir. Todos os presidentes que se seguiram obedeceram fielmente à regra, com exceção de Franklin Roosevelt. Após a morte deste, no exercício do quarto mandato, o Congresso aprovou uma emenda constitucional proibindo expressamente a reeleição indefinida.

Os exemplos de George Washington deixam uma mensagem clara: o presidente não é gente como a gente. Ele tem de ser melhor do que a gente. É também para servir de referência que nós o colocamos lá.

Lula não tem sido uma boa referência. Ao contrário, os exemplos que ele deixará são negativos. Não se aconselha ninguém a segui-los.

O primeiro deles provém da instituição Bolsa-Família. Ela cria nas pessoas a falsa noção de que basta terem nascido pobres para que se tornem credoras do Estado. Cabe a este garantir-lhes uma renda mínima até o fim de sua vida.

Um dos efeitos não previstos pelos idealizadores do programa é que a quantia mensal recebida por família – mais de R$ 100, em média – é baixa unicamente pelos padrões do Sudeste. Nos rincões nacionais ela é suficiente para garantir o sustento de uma família sem que nenhum de seus membros trabalhe.

Ora, criar uma nação de pensionistas é algo que nenhum partido jamais ousou inscrever entre os seus objetivos. Pois o Bolsa-Família criou essa expectativa. Todo mundo doravante se acha no direito de viver à custa do Estado. E isso solapa de vez os alicerces da ética do trabalho.

Outro mau exemplo é o que nos é dado pela nossa política exterior. O governo brasileiro apoia irrestritamente todas as nações que insistem em transgredir as regras da boa convivência internacional.

Cuba e Venezuela rosnam para os Estados Unidos? Pois lá está o Brasil para prestar-lhes solidariedade. As eleições no Irã parecem ter sido fraudadas? Pois lá estamos nós de novo, para emprestar legitimidade ao processo. A Coreia do Norte afronta o mundo fazendo testes nucleares? Pois ela pode contar conosco para evitar, nos foros internacionais, que maiores sanções sejam adotadas.

Não é adotando posições como essas que o Brasil se fará valer. Somos uma nação emergente, sim. Estamos lutando para obter espaço? Sem dúvida. Mas para tanto não é necessário procurar chamar a atenção em razão de posicionamentos discutíveis, em favor de nações delinquentes.

Uma política externa consequente, lastreada na constância, na previsibilidade e na responsabilidade, faria mais pela imagem do Brasil do que todas as bravatas que têm pautado os nossos posicionamentos.

O terceiro mau exemplo que a era Lula nos está legando diz respeito à própria imagem do presidente em si.

Todos nós passamos a vida tentando incutir em nossos filhos a ideia de que sem estudos não se vai longe. Procuramos passar-lhes a noção de que somente por meio do zelo, da aplicação e do esforço é que se pode sonhar alcançar alguma coisa na vida. E tudo isso para quê?

Ninguém menos do que o nosso presidente se arvora em ser o exemplo contrário de tudo isso. Ele se vangloria de não ter estudado.

E procura passar a imagem de que, para vencer na vida, a diligência, o preparo e o esmero são valores inferiores à malandragem, à persuasão e à manha.

Então, é assim? Quem conquista um lugar ao sol são os mais espertos, e não os mais capazes?

Esses são os exemplos que Lula nos dá.

Será que posso recomendá-lo aos meus filhos?

10 Comentários em “O exemplo que Lula nos dá”

  1. Nanci Hessel van Melis says:

    Olá, nobre deputado!
    Sou fã de carteirinha de tudo o que você escreve, porém este texto é uma descrição perfeita da ideologia petista de décadas passadas, em contraposição aos dias de hoje.
    Parabéns pela sua clareza de pensamento e elaboração textual! Só lamento que poucos tem acesso às maravilhas que você escreve.
    Um grande abraço.

    Nancy

  2. amauri says:

    “Estadista é alguém que deixa um legado”, eu completo: que tipo de legado? Se não explicitarmos qual tipo, o Lula deixou sim um legado grande.

  3. Paulo Garcia Martins says:

    Nobre Deputado. Sou seu fã e seu eleitor. Não belos seus “belos olhos”, mas por seu penasamento coerente, pela sua ideologia, pelos seus pricípios democráticos.Este seu artigo sobre o bolsa família retrata fielmente o caminho em que está seguindo nosso pais. Estamos criando um pais de mendigos, onde o “cidadão” prefere ser beneficiado do bolsa família e votar em corruptos, que ter a dádiva de ter um emprego, onde receberia o sagrado e digno salário. Aqui não porevalece mais o princípios bíblico “ganharás o teu pão de cada dia com o suor de teu rosto”, mas sim o princípio petista “ganharás o teu pão de cada dia com o suor de teus irmãos”. Irmão que trabalham, pagam impostos, que geram trabalho, e que são chamados pelos adeptos do luismo de burgueses e de grileiros.
    Parabens nobre depitado. Continue assim. Nós precisamos de muitos políticos como Vossa Excelência.

  4. ruy deSalles Penteado says:

    Tenho concordado com o que você tem dito (permito-me chamá-lo assim, já que estou em vias de completar 82 anos de idade). Resta-me uma dúvida: Por que “says” e não “diz”?

    Um abraço amigo,

    Ruy de Salles Penteado.

  5. Leopoldo Rozza says:

    Excelso e escorreito João Mellão Neto. Quero lhe dizer que eu comungo integralmente com seus pontos de vista sobre a ética, a honradez, o modelo econômico de um país, em fim, lendo seus artigos eu me sinto como se eu os tivesse escrito. Todas as sextas-feiras procuro avidamente no “Estadão” no “espaço aberto” para ver se voce está presente com seus bem elaborados editoriais. Sobre o exemplo que o Lula nos dá, nem vou comentar. O Lula não tem rigidez de carater, ele balança visando seus interesses pessoais.

  6. DannyAfonso says:

    Caro Deputado, Meus parabéns por este brilhante texto, assim como todos os outros que tenho o prazer de ler aqui no blog. O Brasil precisa de mais políticos que pensam como o senhor, mas vc já faz sua parte. Porém, temos que lutar mais por uma sociedade melhor. Parabéns!! Eu o sigo no twitter, poste ideias como essas lá tb, serão bem difundidas. Abraço.

  7. Caro Mellão, fico feliz em ler matérias críticas e muito bem embasadas como as que neste BLOG se dão.
    Quanto ao bolsa-família, aclamo o artigo primeiro de nossa Constituição da República, no qual um dos fundamentos do Estado Democrático de Dreito é o valor social do trabalho. É certo que o benefício está desconstituindo tal fundamento, intrínseco ao Estado Democrático de Direito, na medida em que os “credores do estado” passam a não exercê-lo, pela facilidade que é a pura e simples mendicância assistencial. É uma pena, pois este Estado, que deve ser soberano, cidadão, digno e pluri-partidário, está cada vez menos o sendo.

  8. Roberto Decanine says:

    Tal pai, tal filho e os legados? Vou entrar na briga do burgues. Somos ou não somos um país de pelo menos 150mi.de habitantes pobres?
    Alguém ousou olhar para eles com carinho e a elite ficou histérica
    justamente com seus puxa-sacos de plantão-(legado)!!!!!!!!!

  9. necessario verificar:)

  10. vilma theodoro mifune says:

    Caro Mellao
    Adorei seu comentartroio sobre a bolsa familia.
    Vem de encontro com meu penssamento.
    Acompanho seus artigos ha muitos anos.
    Sou sua eleitora, sua adimiradora e fã.
    Infelismente as pessoas optam pelo lado mais facil.

    Atenciosamente Vilma

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