O QUE ENRIQUECE UMA NAÇÃO – Por que voa a grande águia

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O grande segredo do sucesso americano.

OESP – Publicado em julho de 2001.

Em 1776, na cidade de Filadélfia, – sede do império britânico de ultramar – no dia 4 de julho, representantes das 13 colônias inglesas assinaram a sua declaração de independência. Há apenas 225 anos nascia, assim, aquela que viria ser a mais pujante e poderosa nação jamais erguida sobre a face da Terra.

Nada havia, àquela época, que prenunciasse tal futuro. Com menos de dois milhões de habitantes, espalhados por um território diminuto, os Estados Unidos eram, sem dúvida, os primos pobres da América. Mais ao Sul reluziam os vice-reinados do México, do Peru, do Rio da Prata e de Nova Granada, onde era extraída toda a prata que enriquecia a Coroa espanhola e os opulentos mineradores locais. Havia também uma imensa e afluente colônia portuguesa cuja abundância em ouro e diamantes nunca fora igualada.

As cidades norte americanas eram rústicas e modestas. Em nada se comparavam às concentrações urbanas de Lima, Cidade do México, Bogotá, Caracas, Buenos Aires ou Vila Rica. Sem metais ou pedras preciosas, a nova nação ainda era prejudicada pelo fato de se encontrar na mesma latitude que a Europa. Não lhe era possível plantar cana de açúcar, frutas ou qualquer outro produto agrícola exportável que lhe servisse de moeda de troca com o Velho Continente. Os Estados Unidos estavam condenados ao isolamento. E seu povo, na verdade, preferia que fosse assim…

A roda da História iria girar a seu favor. A menos de um século de sua fundação, os EUA já se apresentavam como uma das cinco maiores potências econômicas do Mundo. Aproveitaram e bem a maré da primeira revolução industrial, copiando, adaptando e reproduzindo, domesticamente, as novas tecnologias e modos de produção.

Na virada do século XX, a nação norte-americana já era a maior potência econômica do planeta. O advento da eletricidade desencadeara uma segunda revolução industrial. Novas e radicais tecnologias se impunham. Os ingleses não souberam se adaptar e declinaram. Os EUA, ao contrário, foram os primeiros a compreender o processo, reestruturar-se e tirar o máximo proveito dele. Nascia o assim chamado “século americano”. No seu transcorrer os norte-americanos assumiriam a liderança tecnológica – antes dos alemães – e a liderança militar, que compartilhavam com a União Soviética.

Não foram poucos os que, através dos anos, previram o pouso final da grande águia americana. Mas, o que ocorre, na verdade, é que ela intenta vôos cada vez mais altos. Os primos pobres da América são agora os líderes incontestes do mundo.Nós os amamos, nós os odiamos; nós os criticamos, nós os invejamos; nós os desprezamos, nós os imitamos. E nunca nos preocupamos, de fato, em entendê-los.

Enquanto os americanos comemoram a sua “Semana da Pátria”, nós, por aqui, bem que poderíamos deixar de lado o nosso falso desdém e fazer um esforço para tentar decifrá-los.

Não existe efeito sem causa. Façamos uma “engenharia reversa” na águia. Vamos acabar descobrindo, surpresos, que seu poder não está nas garras, que rapinam, mas sim nas asas que a mantém no ar.

Leitura obrigatória, para tanto, é “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Trata-se de um estudo de Max Weber, publicado em 1905, que foi eleito, por especialistas internacionais, como a obra mais importante do século 20.

Voltemos a 1776. Enquanto o catolicismo predominava em todo o continente americano, naquelas treze modestas colônias havia um único traço em comum: com exceção de Maryland, em todas predominava o protestantismo. Religião não se discute, é certo. Mas a visão de mundo que cada uma proporciona pode ser um fator decisivo no destino de todo um povo.

Para nós, católicos, Deus é Amor e Misericórdia. Ele nos Entende e Compreende. Absolve nossos pecados, Perdoa as nossas faltas, e Nos conduz a vida eterna. Todos nós estamos aptos para alcançar a salvação, desde que nosso livre arbítrio não nos faça trilhar os caminhos do mal.

Entre os calvinistas – ao menos àquela época, acreditava-se na “doutrina da predestinação”. Antes mesmo de nascermos, nosso destino já estava traçado.Alguns se salvariam enquanto a maioria não. Nada do que fizéssemos no mundo poderia modificar esta sina. E não havia como saber, também, quais, entre nós, eram os eleitos.

Deveríamos todos, eleitos ou não, levar uma vida de virtudes e isenta de pecados. O trabalho árduo era uma forma de louvar a Deus. A riqueza, em si, não era um pecado. Aproveitar-se dela sim. Incorria em pecado quem se valesse da fortuna para gozar prazeres mundanos ou tornar-se indolente. Ao contrário, quanto maior a riqueza, maiores eram os deveres e as responsabilidades…

Mas – haveriam de se perguntar – se nosso destino já está pré-determinado, de que adianta uma vida virtuosa?

É aí que entra o aspecto mais implacável da doutrina de Calvino. Nós não sabemos quais entre nós serão salvos. Mas aqueles que nascem abençoados, naturalmente vivem em virtude, trabalham de forma extenuante e não se entregam aos prazeres do mundo.
Àqueles que incorrerem em pecado fica evidente que não estão entre os eleitos. Aos virtuosos resta ao menos o consolo da dúvida…

É esta, em resumo, a “ética protestante” como Weber a descreveu.

Obviamente, nos dias de hoje, poucos são os que seguem ao pé da letra a doutrina. Mas foi através dela que, em um passado distante – no qual a religião dominava todos os aspectos da vida – o trabalho foi sacralizado. Nascia ali a ética do trabalho, a dignidade do esforço, a crença no labor como forma de oração e a convicção de que a prosperidade é uma benção do Senhor.

Podemos, é claro, questionar esta visão de mundo. Mas o fato é que o capitalismo – para surpresa de seus incontáveis críticos – nasceu no seio da religião. Discutíveis ou não, são estas as asas da grande águia. E é sobre elas que voa a nação…

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