O que enriquece uma nação – O espetáculo do crescimento

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

O espetáculo do crescimento

Se nada atrapalhar, os homens progridem por si sós

OESP – publicado em janeiro de 2004

David Landes e Peter Jay, ambos súditos da rainha Elisabeth, são os autores de dois dos melhores livros que li, nos últimos anos, sobre economia. A ciência econômica é uma matéria para lá de chata. Principalmente quando é escrita por economistas. Em todos os tempos, as obras mais significativas, nesse campo, foram redigidas por especialistas de outras áreas. Adam Smith, por exemplo, tido como o “pai da economia”, era um professor de filosofia moral. Marx, por sua vez, dedicou-se a estudar História. A economia, enquanto ciência isolada, não faz grande sentido. A não ser para os próprios professores de economia.

Já no caso de Landes e Jay, eu não só os leio com os recomendo. O livro do primeiro é “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, publicado em 1999; o do segundo é “A Riqueza do Homem”, de 2000. Ambos pertencem a mais moderna corrente do pensamento econômico. Dispensando os gráficos e as complexas equações, eles buscam na história, nas instituições e nos valores culturais dos povos os motivos de seu eventual sucesso ou fracasso material. Vastos territórios e abundantes recursos naturais ajudam, mas não garantem nada. Há que existir, na sociedade e no governo, uma feliz combinação de fatores para que o círculo virtuoso do progresso se desencadeie e a prosperidade se instale.

De Landes eu já tratei, aqui, no artigo “Respondendo ao Sr. Wolff”. Resta Jay, um diplomata que foi editor de economia do Times e embaixador de Sua Majestade junto a Casa Branca. As opiniões de ambos convergem em diversos aspectos.

Nos cinco mil anos que separam a Suméria – a mais antiga civilização – dos Estados Unidos, os grandes avanços da Humanidade, quando se deram, foram fruto de uma feliz “conjunção astral”. O progresso, para o bicho-homem é uma condição natural. Desde que lhe seja dada uma chance, por mínima que seja, ele irá tentar e fazer de tudo para manter e melhorar as suas condições materiais. Os seres humanos progridem espontaneamente desde que não lhes seja cerceada a sua curiosidade, engenhosidade e competitividade. O problema é que essas “mínimas oportunidades” raras vezes lhes foram concedidas através da História. Quando isso ocorre, mal as sociedades começam a prosperar e a sua incipiente opulência já se torna alvo da cobiça de predadores, sejam eles outros povos menos afluentes, sejam eles os seus próprios governos, que se tornam mais ambiciosos e espoliadores. Dependendo da forma como essas sociedades conseguem lidar com tais ameaças, ou eles prosseguem progredindo ou acabam por desmoronar.

Os exemplos históricos são inúmeros. Egito, Babilônia, Grécia, Roma, entre os mais antigos; Veneza, Portugal, Holanda e Inglaterra, entre os mais recentes.

Não houve arranque mais significativo, em toda a epopéia humana do que a chamada Revolução Industrial. O que sabemos a respeito? Que ela se deu na Inglaterra, a partir de metade final dos anos 1700. E que em função dela o desenvolvimento econômico – até então lento e linear, passou a se incrementar de forma exponencial, em progressão geométrica. Mas se formos procurar uma causa única e específica para seu advento não a encontraremos. A partir de um certo momento as invenções foram se sucedendo, umas abrindo caminhos para outras; as indústrias foram se instalando, criando demandas que eram supridas por novas indústrias e as estradas de ferro começaram a se multiplicar para dar vazão ao que era produzido.

Não, não houve uma única causa, nem sequer uma causa principal. O que ocorreu foi que, uma vez estabelecido o ambiente adequado, o resto veio por conseqüência, espontaneamente, em decorrência da tal propensão natural do homem a progredir desde que lhe sejam dadas as mínimas chances para isso.

Se é inerente ao homem a vocação ao progresso, por que o fenômeno não ocorreu antes, em qualquer outro lugar? Por que precisamente na Inglaterra? Por que só no final do século 18?

Esta é a grande mensagem que tanto Landes quanto Jay nos transmitem.

Na Inglaterra, naquele momento, pela primeira vez na História, numa feliz coincidência, foram reunidos quase todos os requisitos necessários para que os homens pudessem desenvolver, livremente, os seus instintos naturais de curiosidade, engenhosidade e competitividade.

Estavam garantidos o direito à propriedade e ao pleno usufruto dos lucros de seus empreendimentos.

Havia um governo moderado, que garantia a estabilidade econômica, estimulava a livre concorrência, assegurava o fiel cumprimento dos contratos, promovia a igualdade de oportunidades e não tinha pretensões quanto a se apropriar das riquezas de seus súditos.

A Administração pública era isenta e impessoal o suficiente para dissuadir qualquer particular a buscar nela algum tipo de benesse ou privilégio.

Não havia qualquer forma de discriminação aos indivíduos em função de origem, raça ou religião.

E, em função de tudo isso, a sociedade como um todo, entendia que atitudes tais como a honestidade, a confiança no próximo e o dever da reciprocidade não eram apenas valores de ordem moral, mas sim normas de conduta viáveis e altamente convenientes para todos.

Nenhum desses pressupostos é de ordem propriamente econômica. São relativos a questões morais, sociais, culturais e políticas. Mas foram eles que permitiram à humanidade dar o maior salto econômico de sua história.

A lição que nos fica é esta. O “espetáculo do crescimento” não ocorre por obra do carisma, nem se realiza por mera vontade política. Mas, para que ele se dê, também não é necessária nenhuma proeza sobre-humana, ou um fenômeno sobrenatural. A receita é extraordinariamente simples, embora seja tão difícil para o ser humano implementá-la. Basta acreditar nos homens, enquanto indivíduos cujo potencial é infinito. Concedam-se a eles as mínimas chances e eles tratarão, sozinhos, de promover o seu próprio desenvolvimento. Os governos já ajudam o bastante quando tão-somente se abstém de atrapalhar.

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