A VISÃO LIBERAL – O rio e a planície

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

Não são os heróis quem escreve a história.

OESP – Publicado em 1988.

A História Universal é como uma imensa planície, cortada ao meio por um grande rio.
A planície, por natureza, é plácida e tranqüila.
Mas o mesmo não se pode atribuir ao seu rio…
Não se trata de um rio comum…
Suas águas são turbulentas, sujas de pólvora, turvadas por sangue.
O seu curso é sinuoso, traiçoeiro e perigoso.
E a tragédia está à espreita em cada uma de suas curvas.
No seu leito não há veleiros e embarcações pesqueiras. Por ele se aventuram comente galeras e naves de guerra.
As pessoas comuns jamais se atrevem a nele banhar-se. Aquele rio, todos o sabem, é a morada dos semideuses:
São tiranos, imperadores, são heróis e conquistadores;
Gente muito estranha, enfim…
Gente que flagela e escraviza, em nome da Liberdade,
Combate e massacra, em prol da Paz e fraternidade;
Que mata ou que morre, à procura da imortalidade…

Enquanto isso, na vastidão da planície, milhões e milhões de homens comuns vão levando, satisfeitos, suas medíocres e anônimas vidas.

Não buscam poder, notoriedade ou glória.
Trabalham de sol a sol, fertilizando o solo com seus arados;
E tudo o que almejam é mais conforto e prosperidade
Para si para os seus.

Foi na interpretação desta viagem que todos os historiadores, desastradamente, se equivocaram.
Ao narrar a história dos homens, deixaram-se aficcionar pelas sagas do rio…
Enquanto a Civilização, na verdade, brotava na planície.
Sem enredos dramáticos, sem heróis carismáticos,
Ela se fez espontaneamente.
Através do mercado interativo dos homens,
Pela troca de idéias, produtos e experiências;
No exercício do qual beneficiaram-se todos, dos talentos e habilidades peculiares a cada um…

Inspirado no pensamento de Will Durant – um doa maiores pensadores e historiadores de nosso século – “O Rio e a Planície” é a tradução mais pura e mais sublime do que se entende por espírito liberal.
Porque, na verdade, nem nós, nem vocês, nem ninguém, navega epicamente pelas perigosas águas do rio.

Somos todos homens comuns: nossas vidas, nossas lutas, nossos sonhos, pautam-se todos nos valores e condutas da planície.
Se este é o nosso desígnio, se é esta a nossa missão, orgulhosos os recebemos, diretamente das Mãos de Deus.
Não nos entreguemos jamais ao místico fascínio dos super-homens do rio. Seus valores não são os nossos. Seus destinos, com certeza, também não.
A sociedade da planície há que ser governada, tão – somente, pelos homens da planície.
Neste mundo de mentiras que se transformou a política, urge que alguém vá ao povo dizer-lhes somente a verdade.
Quando tantos vão às massas prometer-lhes o fim das agruras, alguém há de acenar-lhes, tão – somente, com o fim das promessas.
Nunca se falou ao povo que a cura da miséria não é a esmola, mas sim a educação e o trabalho;
Que o empobrecimento dos ricos não leva, necessariamente, ao enriquecimento dos pobres;
Que as torneiras que jorram benesses pessoais, estão ligadas aos ralos que escoam os recursos públicos; que sob a isca saborosa do paternalismo, se esconde o anzol afiado da servidão;
Que os povos que buscam salvadores, são povos que não merecem ser salvo;
E que o homem, enfim, só se torna realmente livre, quando escolhe, ele mesmo, o enredo de sua história…

Nós, liberais, por crermos em nossa Pátria e acreditar em nosso povo, confiamos ser este o nosso desígnio.
Pela janela da vida pública podem ser vistas duas paisagens: há aqueles niilistas, que só sabem enxergar o Aldo do pântano; nós, de nossa parte, preferimos vislumbrar o brilho das estrelas. Pois é desse brilho, justamente, que alimentamos a Nossa Missão.

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3 Comentários em “A VISÃO LIBERAL – O rio e a planície”

  1. wellignton lacerda says:

    PARABENS PELO ARTIGO.
    TO PROCURANDO UM ARTIGO,O RICARDO DISSE QUE CHAMA-SE:O QUE ESPERAR DO KASSAB…
    ONDE ENCONTRO ELE?
    ABRAÇOS.

  2. Olá Wellignton,
    Segue o texto solicitado.
    Um abraço, JMN

    “O que esperar de Kassab

    Os paulistanos, por enquanto, estão perplexos. Na última sexta-feira, o prefeito José Serra renunciou ao seu mandato para disputar o governo do Estado e deixou, em seu lugar, o seu vice, o até então quase desconhecido Gilberto Kassab. Quem é ele? Qual é a dele? Saberá governar a cidade? São estas as perguntas que estão todos se fazendo. Afinal ele comandará a quarta maior metrópole do mundo e o terceiro maior orçamento do Brasil- inferior apenas ao da União e ao do Estado de São Paulo. Ficará no cargo por dois anos e nove meses, tempo suficiente para imprimir uma marca própria à gestão da prefeitura de São Paulo.

    Pois bem. Eu conheço Kassab há quase vinte anos. Desde 1988, quando ingressei no Partido Liberal, agremiação da qual, com menos de trinta anos de idade, ele já era uma espécie de factótum.. O PL, de então, era um partido do qual nós nos orgulhávamos de participar. Abraçava a doutrina liberal com convicção e entusiasmo e seus dirigentes se preocupavam, inclusive, em dar aulas sobre liberalismo para os militantes. Afif Domingos, o presidente do partido, fazia questão de dizer que devia grande parte da estrutura do partido ao engenho e a arte daquele rapaz. No ano seguinte, quando Afif se candidatou à presidente da República, confiou a Kassab a coordenação da campanha. Aquele jovem circunspeto viajou por todo o país articulando e amarrando alianças para a candidatura. Foi dali que proveio o seu apelido de “menino-prodígio” da política. Poucos anos após elegeu-se vereador, deputado estadual e, por fim deputado federal, com nada menos do que 240 mil votos. Nesse ínterim, com a desfiguração do PL original, passou para o PFL. Foi Kassab, e ninguém mais, quem montou a estrutura do partido em mais de quinhentos municípios paulistas.

    O presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen, um político experimentado, declara, para quem quiser ouvir, que Kassab é um gênio da arte política. E de fato ele é, em minha opinião. Trata-se de uma convicção formada em uma convivência de quase duas décadas. Kassab interage no jogo político com o cálculo e a visão estratégica de um enxadrista. Não dá um único passo em falso e é capaz de antever várias jogadas à frente.

    Mas se o seu talento político é reconhecido até mesmo pelos seus desafetos, o que dizer de seus pendores administrativos? Nesse campo ele não tem quase nenhuma experiência, a não ser os 14 meses em que exerceu a pasta do planejamento na gestão Pitta. Basta ser um bom político para governar São Paulo?

    Eu acredito que sim. Como dizia o grande prefeito Prestes Maia, governa melhor um político cercado de técnicos do que um técnico cercado de políticos.

    Já fui secretário municipal em três pastas diferentes. Creio conhecer razoavelmente a máquina administrativa da cidade. Ela conta com excelentes quadros e recursos humanos em todas as suas áreas de atuação. É, sem dúvida, a mais gabaritada estrutura pública do Brasil, em nível municipal. De quando em quando ela é violentada e desfalcada por perseguições políticas e idiossincrasias de uma ou outra gestão. Mas ela tem o dom de se recompor. Através da história, os prefeitos bem sucedidos, mesmo sem experiência prévia, foram aqueles que souberam valorizar a prata da casa, garimpando os bons talentos, dando-lhes incentivos e alçando-os para posições de relevo.

    Kassab, excelente político que é, tem sensibilidade suficiente para identificar e atrair, para perto de si, os melhores dentre os melhores.

    Além do mais, é extremamente ambicioso. Aos 45 anos de idade, ele tem ciência de que sua carreira política não se encerra com o mandato-tampão de prefeito que lhe foi concedido. Ele almeja muito mais. E usará de toda a sua capacidade e empenho para consegui-lo.Seu futuro depende da aprovação popular dos paulistanos E, para obtê-la, haverá de se desdobrar ao máximo para ser um excelente prefeito. Ele é obcecado pelo trabalho e não há dúvida de que dará o melhor de si para realizar uma brilhante gestão.

    A prudência o aconselha a ser cauteloso. O povo votou em Serra e não nele. E credibilidade é algo que só se constrói aos poucos O melhor que tem a fazer, no momento, é ser fiel, ao máximo, aos desígnios do ex-prefeito. Kassab não só teve a sabedoria de manter intacto o secretariado serrista como faz questão de declarar sua total lealdade e submissão ao plano de governo do seu antecessor. Ele só arriscará os seus primeiros passos depois das eleições. Serra, se eleito governador, convocará vários secretários municipais para a sua gestão. Para as vagas abertas, Kassab poderá, então, trazer pessoas de sua confiança. A partir daí, começará, de fato, o seu governo.

    Fará uma boa gestão?

    Embora seja prematuro avaliar, eu arrisco dizer que sim. Engenheiro e economista, pela USP, ele não é um jejuno em assuntos relativos a obras e finanças. Bem relacionado com boa parte da elite empresarial de São Paulo, não lhe faltarão bons nomes para compor o seu próprio círculo de auxiliares e conselheiros. Ele possui bom senso e tino político suficientes para não se deixar enredar pelas intrigas e artimanhas que cercam aqueles que ocupam o poder. Sabe, como ninguém, avaliar as pessoas e as suas intenções. Kassab é ambicioso mas não é afoito, vaidoso ou ingênuo. Não faz concessões à demagogia e faz questão de honrar a palavra dada. São essas características que o fazem benquisto e respeitado nos meios políticos. Além do mais, esta recebendo uma prefeitura bem estruturada e encaminhada. Ele reúne, enfim, todas as circunstâncias e predicados necessários para realizar uma boa administração.

    Parte da população paulistana, por enquanto, ainda o vê com algumas reservas. É compreensível, uma vez que pouco sabe sobre ele. Mas quem o conhece está tranqüilo. Kassab sonha alto. E aqueles que almejam as estrelas não se permitem deleites, desfrutes ou deslizes aqui no chão.

    Boa sorte, senhor prefeito! São Paulo, na sua grandeza, exige que o senhor seja grande também…”

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