A VISÃO LIBERAL – O Liberalismo

Publicado por João Mellão Neto Em 16 Jul 2009

A coragem para conviver com as incertezas.

OESP – Publicado em março de 1989.

O que é ser Liberal, pergunta-me um universitário, através de carta. A pergunta, apesar de simples, é muito pertinente. A resposta vale um artigo.

Olha, Denis (é esse o nome do missivista), sinceramente não sei. Certa vez, ainda na faculdade, perguntei ao professor de matemática, após 30 minutos de delirante explanação, o que, afinal, era a tal da “integral”. Ele já se preparava para rabiscar toda a fórmula novamente, quando eu insisti: “Mestre, a fórmula nós já vimos. O que eu queria mesmo saber para que serve, o que eu faço com ela, além de passar no exame”. A explicação doutoral foi a seguinte: “Integral é o contrário da derivada”. “Não arrisquei perguntar o que era derivada. Passaria por burro. Obviamente é o contrário da integral…”

O problema maior do pensamento político é muito semelhante ao que ocorre na matemática. Mestres e alunos são cúmplices na ‘preguiça de pensar’. É mais fácil decorar a fórmula e aplicá-la quando se fizer necessário. Uma das grandes virtudes do pensamento marxista é justamente o fato de o velho Karl ter criado uma fórmula, verdadeiro software ideológico, a partir da qual se deduz tudo, livrando as pessoas de praticar o raciocínio indutivo, muito mais penoso e difícil. Não importa o fato de que quase todas as premissas que fundamentaram a fórmula tenham-se mostrado falsas através do tempo.

Do século XIX para cá os ricos não ficaram mais ricos – apenas aumentaram em número – , nem os pobres ficaram mais pobres – uma razoável parte deles, aliás subiu de status, formando a poderosa classe média dos países desenvolvidos. Tanto importa também o fato de que, das quase duas dezenas de reivindicações que Marx colocou em seu Manifesto de 1948 – as quais considerava indispensável para criação de uma sociedade justa-,os países capitalistas avançados cumpriram ao menos dois trecos,s em necessidade de revoluções, expropriações ou paredões. Se a teoria não bate com os fatos, mais cômodo do que revisar a teoria é ignorar os fatos.

Não tenho, meu caro Denis, uma fórmula para definir o liberalismo. Ele é, na verdade, a negação das fórmulas.é a renúncia ao comodismo ideológico, a coragem de conviver com as incertezas, a convicção de que ninguém, no mundo, possui o monopólio da verdade e da virtude. O liberalismo autêntico é um rude exercício de tolerância política.

O autêntico liberal é aquele que se aceita como falível. Que quando falha admite seu erro e, ao errar,s e dispõe a reconsiderar suas verdades.

Falo em liberal autêntico porque, na verdade, existe o outro, o “liberal dogmático”. Aquele que faz da negação das fórmulas uma fórmula pronta e acabada. O liberal autêntico desconfia do estado e, preferencialmente, defende a iniciativa privada. Já o dogmático se recusa a ver no estado qualquer virtude e acredita que a iniciativa privada é sempre eficiente, construtiva e eficaz.

Ser liberal, meu caro Denis, é acreditar no homem, no seu potencial construtivo, na sua capacidade de discernimento. Mas ser liberal é também reconhecer que o homem não é perfeito e que, quanto mais poder ele concentra individualmente, maiores são suas chances de errar e se corromper.

O liberal autêntico, quando está no poder, tem sempre em conta que a virtude está no meio. Procura abdicar do autoritarismo sem abrir mão da autoridade, defender a liberdade de cada um até o ponto em que ela não se choque com a de seu vizinho, saber compartilhar decisões sem resvalar para o imobilismo assembleísta, delegar funções sem se eximir das suas prerrogativas e responsabilidades.

Só para encerrar, meu jovem amigo Denis, quero te dizer do meu receio de que com essa explicação eu tenha te confundido mais do que esclarecido. Se ela trouxe mais dúvidas do que eu convicções, sinto que colaborei um pouco para transformá-lo em um liberal. Quanto mais se vive mais se aprende.

Feliz do homem que tem só um relógio. Ele sabe sempre que horas são. Já quem tem dois, este nunca tem certeza.

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1 Comentário em “A VISÃO LIBERAL – O Liberalismo”

  1. Eduardo says:

    Imagine então se esse relógio for telúrico!

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